domingo, 22 de junho de 2008

Adolf Hiltler revelado pelos arquivos americanos (materia de 02/02/1950)

(A matéria abaixo surgiu na revista "O Cruzeiro", de 02/02/1950. Trata-se, portanto, de uma raridade)

ADOLF HITLER REVELADO PELOS ARQUIVOS AMERICANOS



Nascido de uma iniciativa americana, conservado durante vários anos nos arquivos do Departamento de Estado e nos relatórios pessoais do Presidente Truman, o documento aqui publicado foi considerado confidencial. Mas pertence à história. Descreve o homem que foi um dos maiores enigmas da nossa era, bem como um dos maiores flagelos do mundo: Adolf Hitler.
As autoridades norte-americanas em Nuremberg tiveram a idéia de ouvir um certo número de pessoas, de diversas profissões, que tivessem conhecido intimamente. Cada qual recebeu um questionário apropriado a seu papel e sua especialidade na vida do Führer. Por exemplo, os generais falaram de Hitler, o chefe do exército; os médicos falaram de suas características físicas e mentais; os íntimos referiram-se aos seus hábitos, suas amizades, suas aversões, etc.
O resultado desses depoimentos constituem provavelmente o retrato mais fiel e mais intimo jamais feito sobre Adolf Hitler.

HITLER E SEU CORPO

PRIMEIRA TESTEMUNHA – (Dr. Erwin Gieseng – otorrinolaringologista) – De 22 de julho a 7 de outubro de 1944, e em fevereiro de 1945, examinei e tratei Hitler cincoenta e cinco vezes.
Fisicamente é fácil descrevê-lo. Altura: 1 metro e 74 ou 75, musculatura mediana dos braços, das pernas e do abdômen, e não fazia nenhum exercício físico. Seu tórax um pouco pára dentro e sua respiração ofegante demonstravam uma mistura de astenia e leptossonia, a não ser que fosse devido ao esgotamento físico e moral. A camada de banha era normal; talvez um pouco mais grossa na barriga. Tinha o sistema piloso pouco desenvolvido, ao contrário da barba que era muito abundante. Nas axilas e no púbis, pilosidade normal. A pele do corpo, principalmente à luz artificial, era de uma palidez extraordinária. Nenhum defeito físico como alguns pretenderam, que Hitler tinha feito uma operação no lábio superior (diziam mesmo que tinha deixado crescer o bigode para esconder a cicatriz que esta operação tinha deixado). Nenhum aparelho dentário visível. Mas um grande numero de coroas e de dentes chumbados assim como um grande “bridge” de ouro na maxila inferior direita. Não tinha varizes nem pé chato. Órgãos totalmente normais, no lado posterior da coxa, veias ligeiramente aparentes. A hipertrofia do braço e do ombro direitos, da qual freqüentemente falavam, não existia ou então não era bastante pronunciada para que eu a notasse. A resistência física de Hitler, tendo o braço estendido horas a fio durante as manifestações do partido, é surpreendente.
Não tinha marca de vacinas no braço, mas sobre o corpo, várias cicatrizes:

1. bem no alto no lado anterior da coxa esquerda, uma profunda cicatriz, oval, antiga, incolor, resultado de um ferimento recebido em 1917;

2. na curva da perna direita, um pouco abaixo do meio do bordo superior da rótula, uma cicatriz incolor com um por dois centímetros, proveniente de uma explosão (bomba de 20 de julho de 1944);

3. no dorso da mão direita, uma cicatriz superficial, redonda, do tamanho de uma ervilha;
na orelha direita uma cicatriz bem visível, no tímpano;

4. na orelha esquerda, sob o martelo, uma cicatriz com 2 milimetros de comprimento;

5. na boca, no meio do céu da boca, uma cicatriz com 1 centimentro de comprimento, destacando-se na mucosa vermelha.

6. Sobre a mão esquerda, tinha um higroma (pequena excrescência causada pela inflamação das bolsas serosas). Seus dedos eram bastante longos e fortes. A extremidade ligeiramente cônica. Unhas curtas e chatas Lúnula bem visível em todos os dedos.

É certo que Morell lhe deu, três ou quatro vezes por semana, durante vários anos, injeções de açúcar de uva. O que não é certo é que Morell lhe tenha aplicado injeções de hormônio para apagar nele estigmas femininos. Não descobri em Hitler nenhum estigma feminino. E seu andar nada tinha de feminino ou de afetado. Ele próprio falou-me de um defeito na visão do olho direito. De acordo com o seu oculista, tratava-se de um começo de catarata. Ignoro se era de origem sifilítica. Em todo caso não tinha o mínimo sintoma de sífilis congênita. Hitler usava óculos para ver de perto. Vidro direito: 2,5 dioptrias; vidro esquerdo: 2 dioptrias. Todos os textos que lhe eram destinados deviam ser batidos por uma máquina especial que tinha os tipos particularmente grossos. Pulmões e coração normais; 72 pulsações por minuto. Pulso sonoro, regular, medianamente forte. Nada de anormal no circuito arterial. O nariz apresentava na narina esquerda um desvio: a cartilagem que o divide era deformada em direção à direita. A trompa esquerda estava nitidamente hipertrofiada no centro, com um começo de formação de pólipos.
A barriga era elástica e cedia facilmente a qualquer pressão. Nenhuma hipertrofia do baço e do fígado. A região da bexiga e a dos rins, livre. Nenhum traço de apendicetomia; nenhuma tendência para a hérnia.

120 COMPRIMIDOS POR SEMANA

Os dois exames neurológicos que fiz, em 26 de agosto e em 2 de outubro de 1944, não me permitiram (não mais que o exame radiográfico do crânio efetuado em 15 de setembro de 1944), revelar em Hitler lesões orgânicas do cérebro ou da medula espinhal. Em fevereiro de 1945, constatei um tremor em sua mão esquerda. Era uma espécie de paralisia agitada, nervosa, histérica. Nesta época o esgotamento intelectual e corporal de Hitler eram extraordinários. Da primavera de 1942 ao outono de 1944, sempre foi estimulado pela absorção freqüente de pílulas antigas contendo extrato de noz-vômica (estriquinina) e beladona na proporção de 0,04, o que o levou em setembro de 1944, a uma intoxicação com lesão do fígado e um derrame biliar que o deixou de cama durante um mês.

Sob o ponto de vista de sua constituição, Hitler era um sangüineo, com sintomas coléricos. Mas seu domínio sobre si era tão forte, que chegava freqüentemente, diante de estranhos, a dar a impressão de um homem de temperamento normal. /era um psicopata que não se podia convencer, mesmo quando os fatos falavam indiscutivelmente contra ele. Mas nunca fui testemunha de verdadeiros acessos de cólera ou de reações histéricas acompanhadas por atos excessivos tais como se jogar no chão, ou morder o tapete, etc.

Esta psicopatia constitucional e a convicção que tinha de saber e fazer tudo melhor que ninguém deram nascimento a um estado neurótico grave. Daí a importância que dava a observação do seu corpo, a atividade do seu estômago e seus intestinos, mania que tinha de sempre pensar na morte, a mania de soporíferos, de comprimidos, de injeções. No entanto Hitler não era um toxicômano.
Hitler não fumava nem bebia.
Tornou-se vegetariano a partir de 1933. Antes, comia muita carne, particularmente carne de porco bem gorda., da qual muito gostava.
É verdade que Hitler, para certas coisas, mostrava-se muito pouco exigente. Suas roupas, sua comida e seus hábitos pessoais eram simples. Mas por outro lado, gostava de construções luxuosas. Ficava contente por te um trem especial.

Seu conhecimento dos homens era medíocre. As pessoas que o cercavam estavam geralmente abaixo da média e precisamente nelas Hitler tinha mais confiança. Sua atitude amigável para alguns chefes dóceis mas incapazes (Keitel, Goering), e hostil para alguns chefes rígidos mas competnetes (Halder, Braushitsch, Rundstedt) é inexplicável. Como psicopata praticava os dois extremos: amabilidade excessiva para alguns membros; frieza total para outros dos seus colaboradores.

Como eu lhe disse uma vez: “Era o único chefe de Estado do mundo que tomou de 120 a 150 comprimidos por semana e recebeu de 6 a 10 injeções por semana!”
Não sei se Hitler tinha um sósia. Em todo caso nunca ouvi falar dele.

SEGUNDA TESTEMUNHA: (O Conde Von Schwerin, general das Forças Blindadas) – Alemão do Sul, tendo passado todos os anos de sua formação na Áustria ou na Baviera, Hitler era por natureza um estrangeiro aos alemães do Norte. Tinha tomado por modelo Frederico, o grande, e reconhecia a grandeza da obra realizada pela Alemanha do Norte sob a direção de Bismarck. Mas duvido que se tenha profundamente enraizado no modo de pensar e de sentir dos alemães do Norte.
Isto se traduzia nos domínios militares, por uma oposição íntima com a maior parte dos grandes chefes tais como: Fritsch, Branschitsch, Kleist, Bock, Manstein, Kluge, etc...
Hitler não tinha com eles nenhum contato profundo, ainda mais que a diferença de origem social era acrescentada a de origem geográfica. Sua desconfiança em relação ao Estado-Maior e ao conjunto de generais crescia sempre a despeito das vitórias obtidas no correr dos primeiros anos da guerra. Viu mesmo nestas vitórias a confirmação da idéia de que todos os sucessos alemães desde 1936 eram sua obra pessoal, realizada contra a oposição dos generalíssimos e do Estado-Maior.

Raramente a natureza reuniu em um só homem tão grandes contrastes como em Hitler. É pois extremamente difícil traçar dele um retrato realmente coerente. Seguindo o fim que queria atingir, era uma ou outra de suas qualidades que passava ao primeiro plano: a dureza ou a suavidade, a tenacidade ou a prudência, a obstinação ou a docilidade. Era impossível prever suas reações e em seguida, compreendê-las.
Possuía uma inteligência viva e muito penetrante, uma capacidade de assimilação rápida, fortes disposições para a matemática, uma memória como poucas e a faculdade de discernir claramente o essencial. A isto acrescente-se um talento oratório incontestável. Tal conjunto assegurava-lhe uma superioridade nas discussões que, mesmo os generais que tinham a palavra fácil tais como Bock e Von Manstein, não lhe faziam frente. Era capaz de justificar o seu modo de ver de uma maneira tão lógica, tão demonstrativa e tão indiscutível que obrigava o adversário a dar-se por vencido.

HITLER QUERIA CONVENCER

Quando todos os meios de persuasão tinham sido usados, Hitler, na sua qualidade de chefe de Estado e do Exército, recorria ao meio supremo: a ordem. Mas acho que ficava então insatisfeito. Não se podia adivinhar o que pensava. Era por vezes afável e delicado, mas geralmente duro até a brutalidade e tenaz até a obstinação. Era essencialmente uma natureza de artista que se tinha recoberto progressivamente com uma couraça de inflexibilidade. Não podíamos nunca prever se uma conferência seria levada com calma ou se provocaria um daqueles excessos coléricos tão famosos. Às jogava brutalmente sobre a mesa o lápis que tinha na mão e corria de um lado para outro como um louco.

Várias vezes fui testemunha de cenas deste gênero: quando recebeu o relatório do Coronel-General Hoeppner, sobre o revés diante de Moscou, em fins de 1941; quando da volta do Cáucaso do Coronel-General Jodl, em agosto de 1943; pouco antes do Coronel-General Halder ser reformado: quando dos danos sofridos pelas forças blindadas do General Heim, em novembro de 1942, quando pela luta sustentada oelo Coronel-General Zeitzler, por ter abandonado Stalingrado, etc...Estas cenas se agravaram pela freqüência, em diferentes ocasiões principalmente quando falavam do estado de Branschitsch, de Beck, de Von Bock, de Forster, mais tarde também de Manstein. Os espectadores só podiam esperar em silêncio que Hitler se acalmasse senão haveria pior.

O cumulo é que em alguns casos, Hitler podia ser acessível aos conselhos e mesmo acolher com alegria e reconhecimento as propostas que lhe eram feitas. A única coisa que um interlocutor nunca podia falar, era contradizê-lo em público. Neste caso, estava perdido.
Sua tenacidade, ligada à sua força de vontade, fizeram-no passar de domínio da dura realidade para o reino das quimeras. Depois de 1942 principalmente, tanto nas pequenas coisas como nas grandes, deixou de ver a situação como era para vê-la como queria que fosse. È assim que, em 1943-1944, acreditou que os russos estavam esgotados e abandonou sistematicamente os cálculos do estado-maior que diziam o contrário. Assim acreditou na possibilidade de se manter diante de Stalingrado; na bacia do Donetz; na Criméia; nos países Bálticos; manter uma cabeça de ponte em Salerno; em Budapeste, etc....
Assim acreditou até o último dia na derrota dos seus inimigos.

É A HISTÓRIA QUE TINHA ENSINADO A GUERRA A HITLER

Continua......

domingo, 15 de junho de 2008

A Arte e Isadora Duncan


Em São Francisco, em 1878, Isadora O’Gorman Duncan, senhora muito ativa e que tocava piano com muito gosto, resolveu divorciar-se do marido, o distinto senhor Duncan, cuja conduta foi, ao que parece, muito pouco delicada. A questão afetou-lhe tanto os nervos, que disse aos filhos que o estômago não suportava senão um pouco de champanha e ostras. E no meio do ressentimento, das acusações e dos desgostos domésticos – num mundo de pensões iluminadas e gás e mantidas por belezas meridionais arruinadas, magnatas ferroviários e porta giratórias, de bebedores de uísque que mascavam cravo para que lhes notassem o mau hálito e escarradeiras de lata, carros de quatro rodas e cinturas justas, de desocupados e vestidos compridos, de muitos babados e cauda (num mundo no qual salas de conferências e de concertos davam direito a chamar-se senhoras cultas e constituíam o centro da vida daquele que tivesse aspirações) – teve uma filha a que deu o próprio nome:Isadora.

O rompimento com o senhor Duncan e a descoberta de sua duplicidade, converteram a senhora Duncan em feminista fanática, em atéia e apaixonada entusiasta das conferências e artigos de Bob Ingersoll. Onde estava escrito Deus, lia Natureza; onde estava escrito Dever, beleza; e somente o homem é vil.A Senhora Duncan lutou muito para criar seus filhos no amor à beleza e no ódio aos coletes, às convenções e às leis ditadas pelos homens. Deu lições de piano, fez bordados e teceu chalés e luvas. Os Duncans estavam sempre cheios de dívidas. Deviam sempre o aluguel da casa.As primeiras lembranças de Isadora eram as de adulações aos vendeiros, açougueiros e proprietários de casas e a venda de gulodices que sua mãe fazia, de porta em porta, e ajudando a tirar as maletaas por uma porta dos fundos, quando tinham de passar calote nas pensões, uma atrás das outras, todas pobres e com muitas pretensões.Os pequenos Duncans e a mãe formavam um clã: os Duncans contra o mundo grosserio e sórdido. Não eram católicos nem prostestantes, nem quakers, nem batistas; eram artistas.Ainda pequenos, os meninos chamavam a atenção da vizinhança, dando representações teatrais num celeiro.

Elizabeth, a mais velha, dava lições de danças de salão. Como eram do Oeste, o mundo lhes parecia uma quimera. Não se envergonhavam de mostrar-se em público. Isadora tinha olhos verdes, cabelos avermelhados e um pescoço e uns braços magníficos. Como não podia pagar as lições de dança, inventou sua própria dança.Mudaram-se para Chicago. Isadora dançou na festa organizada pelo Washington Post, no jardim do templo maçônico e conseguiu um emprego de cincoenta dólares por semana. Dançava nos clubes. Foi ver Augustin Daly e disse-lhe que havia descoberto a Dança. Em Nova Iorque, fez o papel de fada, numa representação de Sonho de uma Noite de Verão, com Ada Rehan.Os Duncans seguiram para Nova Iorque. Alugaram uma grande sala em Carnegie Hall, puseram colchões nos cantos, penduraram cortinas nas paredes e fundaram o primeiro estúdio de Greenwich Village. Estavam sempre com medo de que a policia os apanhassem. Passavam a vida bajulando os comerciantes que lhes apresentavam as contas, fazendo a dona esperar pelo aluguel e arrancando dinheiro dos ricos. Isadora organizou recitais em Ethelbert Nevin. Interpretava, dançando, os poemas de Omã Khayyam, para as senhoras da sociedade de Newport.

Quando o Hotel Windsor se incendiou, perderam todas as cousas, inclusive as contas que deviam, e embarcaram para Londres num navio de transporte de gado, fugindo do materialismo da América.No Museu Britânico, descobriram os gregos. A Dança era grega.Sob as fumarentas chaminés de Londres, nas praças cobertas de fuligem, dançaram com túnicas de musseline, copiaram atitudes das ânforas gregas, percorreram galerias de arte, assistiram a conferências, concertos e representações, encheram-se, num inverno, de cincoenta anos de cultura vitoriana.Sempre que eram postos para fora, por não pagar aluguel, Isadora, os levava para os melhores hotéis, alugava uma série de salas e ordenava aos criados que se apressassem em servir lagosta, champanha e frutas que não fossem da estação. Nada era bom demais para os artistas, os Duncans, os gregos. E a frescura de Isadora encantava à Londres do século dezenove. Dançavam em festas de aristocráticas mansões de Kesington e Mayfair. Os ingleses, do Príncipe Eduardo para baixo, sentiam-se escravos de sua beleza pré-rafaelita, de sua inocência cheia de vida, de seu sotaque californiano.

Depois de Londres foi Paris da Exposição Universal de 1900. Isadora dançou com Louie Fuller. Era ainda uma virgem muito tímida, para compreender as insinuações de um Rodin, o grande mestre, que então se achava inteiramente desconcertado com as extravagâncias do bando de moças aloucadas e homossexuais de Louie Fuller. Os Duncans eram vegetarianos, desconfiavam da vulgaridade, dos homens e do materialismo. Raymond fez sandálias para todos. Isadora, sua mãe e seu irmão Raymond, correram a Europa em sandálias, com véus à cabeça e vivendo a vida grega da natureza numa sinfonia de contas a pagar.O primeiro recital de Isadora teve lugar num teatro de Budapeste. Depois disto, tornou-se a diva e teve uma aventura com um ator. Em Munique, os estudantes desatrelaram os cavalos do seu carro. Tudo eram flores, aplausos e champanha. Fez furor em Berlim. Com o dinheiro que ganhou na excursão artística pela Alemanha, levou todos os Duncans à Grécia.Chegaram num bote de pesca a Itaca.

No Partenon, posaram para os fotógrafos. Dançaram no Teatro de Dionisios. Ensinaram um bando de meninos esfarrapados a cantar o antigo coro das Suplicantes. Construíram um templo para morar, numa colina que dominava as ruínas da velha Atenas. Mas na colina não havia água e antes que o templo estivesse concluído o dinheiro acabou.Tiveram que hospedar-se no Hotel d’Angleterre, onde chegaram a dever uma boa soma. Quando o crédito acabou, levaram o coro para Berlim e representaram os Suplicantes em grego antigo. Ao ver Isadora envolta em seu peplo, caminhando pelo Tiergarten à frente dos meninos todos vestindo túnicas gregas, o cavalo da imperatriz assustou-se e atirou Sua Majestade ao chão.Isadora ficou na moda. Chegou a São Petesburgo a tempo de ver o funeral noturno dos revolucionários mortos a tiro em frente ao Palácio de Inverno, em 1905. Teve muita pena.

Ela era norte-americana como Walt Whitman. Os governos que cometem assassinatos não eram de sua classe. Sua gente eram os manifestantes. Os artistas nunca estavam do lado das metralhadoras. Era uma norte-americana de túnica grega estava com o povo.Em São Petersburgo, que ainda estava enfeitada pelo balé século dezoito da corte do Rei Sol, suas danas foram consideradas perigosas pelas autoridades.Na Alemanha, fundou uma escola com auxilio de sua irmã Elizabeth, que teve a seu cargo toda a organização; e deu à luz uma filho de Gordon Craig.Fez na América a entrada triunfal que sempre havia planejado e deixou os filisteus consternados com uma excursão artística. Seus companheiros eram detidos pela policia, por vestirem túnicas gregas. Na democrática América não havia liberdade para a Arte.O regresso a Paris foi uma apoteose: Arte significava Isadora. No funeral do Príncipe de Polignac conheceu o milionário (rei da máquina de costura) que seria o futuro provedor e financiador da sua escola. Foi com ele no seu iate (tudo o que Isadora fazia era Arte) dançar no Templo de Paeston, só para ele. Mas chovia e os músicos ficaram molhados até os ossos e todos preferiram embebedar-se.A vida do milionário era Arte. Arte era tudo o que Isadora fazia.

De volta, pela segunda vez, ao seu país, escandalizou, com sua dança, as velhas senhoras dos clubes e as solteironas aficionadas das artes. Também já mostrava no ventre o filho do milionário. E deu para beber e avançar até o palco, discutindo com os artistas.Isadora estava no auge da glória e do escândalo, do poder e da riqueza. A escola progredia, o milionário ia construir um teatro em Paris, os Duncans eram sacerdotes de um culto (Arte era o que Isadora fazia).O automovel que, em Paris, levava seus filhos, parou numa das pontes do Sena. Esquecendo-se de que o carro estava com o cambio ligado, o chofer deu a partida. O motor arrancou e o automóvel caiu no rio.Os meninos e a ama afogaram-se.O resto da vida, Isadora viveu num desespero, entre alvoroços de escândalos, caras irônicas de jornalistas, ameaças de procuradores, demandas de gerentes de hotéis que apresentavam contas atrasadas.

Isadora bebia demais, não podia deixar os jovens tranqüilos, usava o cabelo com vários tons de vermelho, nunca se preocupava em pintar-se como devia. Descuidava dos vestidos e jamais soube em que gastava dinheiro. Mas a impressão de saúde enchia a sala, quando a figura de braços maravilhosos avançava, lentamente, do fundo do cenário. Não sabia o que era medo; era uma grande bailarina.Em São Francisco, sua cidade natal, os políticos não permitiram que ela dançasse no Teatro Grego, que haviam construído por sua influência. Onde ia, ofendia aos filisteus. Quando a guerra estalou, dançou a Marselhesa. Isso, no entanto, pareceu irreverente e sentiram-se ofendidos por não haver renegado a Wagner, nem ter mostrado respeitáveis instintos de matança.Em sua excursão pela América do Sul, ligou-se com homens, em todas as partes: um pintor espanhol, alguns lutadores de boxe, um foguista de navio, um poeta brasileiro - deve ser João do Rio (Paulo Barreto), ao menos pelo que se pode deduzir das refrencias que ele faz a Isadora, em sua autobiografia. Procovou escândalos nos salões de tango. Chamou os argentinos de negros do palco. Embebedou-se de triunfo, em Montevidéu e no Brasil. Mas, enquanto tinha dinheiro, não podia evitar e gastava a rodo com dançarinos de tango, donativos, ceias depois do espetáculo e toda uma seqüência de loucuras. Tudo por sua conta. Os empresários aborreciam-na. Não sabia o que era, não se envergonhava com as murmurações, nem com as manchetes dos vespertinos.

Quando outubro levantou o pano do Velho Mundo, lembrou-se de São Petersburgo, dos esquifes deslisando pelas ruas silenciosas, dos rostos pálidos e dos punhos cerrados daquela noite e dançou a Marcha Eslava, pondo um lenço vermelho diante do nariz das velhas senhores de Boston, no Symphony Hall.Mas quando foi à Rússia, com a esperança de encontrar uma nova escola de trabalho, uma vida livre – viu que tudo ali era grande demais, difícil demais.Quando já lhe era impossível obter mais dinheiro para a Arte, para as pessoas que comiam e bebiam nos seus aposentos de hotéis, para alugar Rolls-Royces e para a manutenção de seus discípulos e alunos – Isadora foi para a Riviera escrever suas memórias, afim de arrancar um pouco de dinheiro do publico norte-americano que, depois da guerra, havia despertado para os gregos, o escândalo e a Arte, e ainda tinha dólares para gastar.

Alugou um estúdio em Nice, mas nunca pode pagar o aluguel. Tinha brigado com o milionário. Suas jóias, sua famosa esmeralda, seu manto de arminho, seus objetos de arte, foram parar em casas de penhor ou em mãos de usurários. Tudo o que lhe restava eram os velhos cenários azuis que tinham visto seus grandes triunfos, uma carteira de couro vermelho e um velho abrigo de pele, descosturado nas costas. Não podia deixar de beber ou de lançar-se nos braços do primeiro que lhe aparecesse. Quando dispunha de dinheiro, organizava uma festa. Tentou afogar-se e um oficial da marinha inglesa tirou-a do mediterrâneo batido de luar.Um dia, encontrou num pequeno restaurante de golfe, Juan, um jovem italiano, que tinha uma garagem e dirigia uma pequena Bugatti de corrida. Disendo-lhe que talvez se decidisse a comprar o automóvel, pediu-lhe que fosse a seu estúdio, para que a levasse a dar um passeio. Seus amigos não queriam que fosse, diziam que o italiano era um simples mecânico, mas Isadora insistiu. Tinha bebido uns copos (no mundo só lhe interessavam a bebida e os jovens simpáticos...), ligou-se ao italiano, lançou para trás a echarpe de longas franjas para envolver o pescoço, com seu largo gesto habitual, virou a acabeça e disse com o sotaque californiano que jamais pode esquecer:“Adieu, mês amis, je vais à la glorie «O mecânico deu a partida e o carro arrancou. A pesada echarpe, que pendia para fora do carro, enroscou-se numa roda, puxou violentamente a cabeça de Isadora para o lado..O automóvel deteve-se instantaneamente. Tinha o nariz arrebentado, o pescoço pendendo...Estava morta.


(Extraído de "Dinheiro Graúdo" – John dos Passos – edição 1938)

domingo, 16 de dezembro de 2007

A origem do Natal, ou Como uma data fajuta faz a cabeça dos cristãos

A maioria dos cristão desconhece a origem do Natal. Na verdade, a data de 25 de dezembro está ligada às festas pagãs, sem relação nenhuma com Jesus Cristo pois na verdade este dia era dedicado ao deus Mitra.

A origem da árvore de Natal também vem de época bem remota.
Começou na Antiga Babilônia com Nimrod (que quer dizer Rebelde), neto de Cã, filho de Noé. Fundador da Torre de Babel, Nimrod casou-se com a própria mãe, Semiramis, que após a morte do filho-marido, começou a propagar sua adoração, alegando que um grande pinheiro havia crescido da noite para o dia, de uma pedaço de árvore morta, que simbolizava o desabrochar da morte de Ninrod para uma nova vida. E assim, anualmente, no dia do aniversário do falecido filho/marido, ela dizia que este visitava a árvore “sempre viva” e deixava presentes nela.

O dia de nascimento de Nimrod era 25 de dezembro. Sabe-se também que o carvalho era sagrado entre os druidas, as palmeiras entre os egípcios, e o abeto entre os romanos, que era decorado com cerejas negras durante as Saturnais (ou Saturnália). Acreditava-se também que o deus escandinavo Odin dava presentes na época do Natal a quem se aproximasse do seu Abeto Sagrado.

Após sua morte, Semiramis e seu filho/marido Nimrod converteram-se também em objeto de adoração, tendo sido adorados por diversos nomes em lugares diferentes como “Rainha dos Céus” dos Babilônios e Nimrod, por sua vez, converteu-se em “Divino Filho do Céu” passando a ser considerado como”filho de Baal, o Deus-Sol”.

Com o decorrer dos séculos, mãe e filho se transformaram-se em objetos principais de adoração e a sua veneração espalhou-se pelo mundo antigo: “A mãe a criança”, “Virgem e o menino”, recebendo vários nomes como Isis e Osíris no antigo Egito, Cibele e Deois na Ásia, Fortuna e Júpiter na Roma Pagã e em outros lugares do mundo, criando a imagem de “mãe de Deus”, muito tempo antes do nascimento de Jesus Cristo.

O mundo pagão celebrava o dia 25 de dezembro como o dia do nascimento de Isis (ou “Rainha do Céu) muito tempo antes do Imperador Constantino torná-la data comemorativa do nascimento de Cristo. Os persas comemoravam este período como o nascimento de Mitra, o Deus Sol, e acreditavam que um pequeno sol nascia sob a forma de um bebê, comemorando em 25 de dezembro o Dia do Nascimento do Sol Invicto (que os romanos chamavam de Natalis Solis Invicti). Jantares e árvores verdes ornamentadas para espantar os maus espírito da escuridão eram comuns e presentes de bom agouro eram ofertados aos amigos.

Os Druidas, que tiveram vários de seus rituais apropriados pela Igreja Católica de Roma, comemoravam este dia, e as festividades aconteciam ao redor do monumento de Stonehenge, construído em 3100 a.C. para marcar a trajetória do Sol ao longo do ano.

Com o crescimento da religião católica, que incorporou em sua ortodoxia vários costumes pagãos, principalmente para ganhar adeptos, Constantino aproveitou esta data, onde se comemorava a festividade da brunária (25 de dezembro), as Saturnais (ou Saturnália) de 17 a 24 de dezembro - celebrando o solstício de inverno que é quando o sol atinge o seu afastamento máximo da linha do equador, tornando as noites mais longas e marcando o início do inverno, e o “Novo Sol”, e as Calendas, quando se iniciava um ano novo -, dando assim um golpe político para trazer a massa de cristãos recém-convertidos ao cristianismo e aproveitando a influencia do maniqueísmo pagão que identificava o filho de Deus como o Sol físico, decretando que esta festa do dia 25 de dezembro (dia do nascimento do deus-sol, ou solstício), seria a data comemorativa do nascimento do filho de Deus. Desta forma o”Natal” – ou seja, dia do nascimento-, se enraizou no mundo ocidental.

As Saturnais era orgias carnavalescas (ou seja, “da carne”), onde havia muito vinho e depravação, em homenagem ao deus Saturno. Durante as Saturnais a orgia era comandada por um chefe de folia, uma espécie de Rei Momo, um homem gordo, que representava Saturno, ceias fartas, troca de presentes e a queima de velas.

Juliano, o Apóstata, sobrinho de Constantino, que também era adorador de Mitra, disse a respeito desta celebração do dia 25 de dezembro:

“Antes do início do ano, no final do mês cujo nome é segundo Saturno (dezembro), celebramos em honra de Hélios (o Sol), os jogos mais esplendidos e dedicamos o festival ao Invencível Sol. Que os deuses governantes me concedam louvar e sacrificar neste festival. E sobre os outros, que Hélios mesmo, o rei de todos, conceda-me isto”

É importante ressaltar que este costume foi adotado a partir de 336 d.C. e é desta época o início da adoração da “virgem e o menino”, trazidos pelos novos cristãos, pagãos recém convertidos, que continuaram a adorar o Sol, festejando o nascimento do astro-rei, agora transformada na celebração do nascimento de Jesus Cristo. Desta forma, o paganismo foi introduzido dentro do cristianismo.

Interessante é que Jesus Cristo, conforme a bíblia sagrada diz, não pediu que se comemorasse seu nascimento, mas sim sua morte conforme relatado em Lucas 22:19, onde diz: “E, tomando o pão e havendo dado graças, partiu-o e deu-lho, dizendo: Isto é o meu corpo, que por vós é dado; fazei isto em memória de mim”.

sábado, 23 de junho de 2007

Dinheiro e sexo - As supremas ilusões

Existem duas ilusões bastante diferenciadas em nossa cultura – uma relacionada com o dinheiro e a outra com o sexo. A ilusão de que o dinheiro é onipotente, que ele pode solucionar todos os problemas e trazer ao seu proprietário toda a alegria e felicidade, é responsável pelo culto ao dinheiro.
De maneira similar, o culto ao sexo provém de uma crença na onipotência do sexo. Na opinião daqueles que partilham destas ilusões, o encanto sexual, assim como o dinheiro, é um poder que pode ser usado para abrir as portas do céu. Para muita gente, dinheiro e sexo tornaram-se as divindades supremas.
Todo paciente esquizóide possui a ilusão de que o sexo é onipotente. Toda moça esquizóide, embora cônscia de não ser aclamada “deusa do amor”, tem uma profunda convicção da irresistibilidade do seu encanto sexual. Algumas o “demonstram”, ao passo que outras tem este sentimento encoberto pelo medo e pela ansiedade. Esta ilusão dá uma uma importância indevida ao sexo, negligenciando assim a personalidade total.
Sexo e personalidade são dois lados da mesma moeda. A tentativa de divorciar o sexo de sua base na personalidade total conduz à ilusão da "sofisticação" sexual. O "sofisticado" sexual utiliza o sexo como meio de se relacionar ou como instrumento de poder. Esta utilização do sexo distorce a sua função. Em vez de se constituir numa expressão de sentimento pelo parceiro sexual, ele se torna uma manobra para fazer inflar o ego da pessoa e estabelecer a sua superioridade.
O homem que desempenha o papel do irresistível "Casanova" procura corresponder a uma imagem egóica de si próprio como "grande amante". A mulher que se julga sexy acredita que o seu encanto sexual demonstra a superioridade de sua feminilidade.
O fato de o sexo ser uma expressão de sentimento e que um corpo sem sentimento é desprovido de sexualidade são verdades que o individuo esquizóide ignora. A ilusão do sexualismo torna erroneamente a aparência como se fosse o conteúdo, e confunde "sofisticação" sexual com maturidade sexual. Esta ilusão, assim como muitas outras, evolui com um exagero da situação da infância. Ela representa uma fixação no nível edipiano e é uma ampliação dos sentimentos incestuosos entre pais e filhos.

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O comportamento destrutivo visto hoje em dia no alcoolismo, no vício em drogas, na deliqüência e na promiscuidade, reflete o grau até onde os indivíduos em nossa cultura tornaram-se isolados, desligados e desesperados. Pouca diferença faz se a depressão é real ou imaginária, exceto que no desespero real a estratégia de defesa é interrompida logo que a emergência é ultrapassada. O indivíduo esquizóide, todavia, vive num estado contínuo de emergência. A sorte específica que ele teme, pode ser determinada a partir do seu comportamento, uma vez que este comportamento constitui simultaneamente um desafio à sua sorte e uma tentativa de precaver-se contra as conseqüências desastrosas.
Quando o individuo esquizóide age de forma tal, ele tenta explicar seu isolamento, a sua inutilidade e o seu vazio.

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Continua.

Extraido de "O corpo traído - Dr. Alexander Lowen, edição 1979"

sexta-feira, 1 de junho de 2007

11 coisas que estudantes não aprenderiam na escola

Dizem que o texto abaixo foi dito por Bill Gates em uma conferência numa escola secundária sobre 11 coisas que estudantes não aprenderiam na escola. Fala sobre como a política do “sentir-se bem” tem criado uma geração de crianças sem noção da realidade e como esta política tem levado as pessoas a falharem em suas vidas posteriores à escola.
A vida pode ser cruel, e a crueldade pode atingir qualquer um, principalmente aqueles que não tem os pés firmes no chão

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Regra 1: A vida não é fácil - acostume-se com isso.

Regra 2: O mundo não está preocupado com a sua auto-estima. O mundo espera que você faça alguma coisa útil por ele ANTES de sentir-se bem com você mesmo.

Regra 3: Você não ganhará US$ 40,000 por ano assim que sair da escola. Você não será vice-presidente de uma empresa com carro e telefone à disposição antes que você tenha conseguido comprar seu próprio carro e telefone.

Regra 4: Se você acha seu professor rude, espere até ter um chefe. Ele não terá pena de você.

Regra 5: Fritar hambúrgueres não está abaixo da sua posição social. Seus avós têm uma palavra diferente para isso - eles chamam de oportunidade.

Regra 6: Se você fracassar, não é culpa de seus pais, então não lamente seus erros, aprenda com eles.

Regra 7: Antes de você nascer seus pais não eram tão chatos como agora. Eles só ficaram assim por pagar as suas contas, lavar suas roupas e ouvir você falar o quanto você mesmo era legal. Então antes de salvar o planeta para a próxima geração querendo consertar os erros da geração dos seus pais, tente limpar seu próprio quarto.

Regra 8: Sua escola pode ter eliminado a distinção entre vencedores e perdedores, mas a vida não é assim. Em algumas escolas você repete mais de um ano e tem quantas chances precisar até acertar. Isto não se parece com absolutamente NADA na vida real.

Regra 9: A vida não é dividida em semestres. Você não terá sempre os verões livres e é pouco provável que outros empregados o ajudarão a cumprir suas tarefas no fim de cada período.

Regra 10: Televisão NÃO É vida real. Na vida real, as pessoas têm que deixar o barzinho ou a cafeteria e ir trabalhar.

Regra 11: Seja legal com os "Nerds". Existe uma grande probabilidade de você vir a trabalhar para um deles.

quinta-feira, 31 de maio de 2007

Egar Rice Burroughs, autor de Tarzan dos Macacos












Desde o dia em que nasceu, 1 de setembro de 1875, em Chicago, até àquele em que ofereceu a sua primeira história a All-Story Magazine, em 1911, Edgard Rice Burroughs fracassou em quase tudo o que tentou. Freqüentou meia duzia de escolas públicas e particulares antes de se formar na Academia Militar de Michigan. Não tendo conseguido designação para um posto em nenhuma unidade militar - nem mesmo no exército chinês - acabou sentando praça no Sétimo Batalhão de Cavalaria dos Estados Unidos. Mas, ao dar baixa, continuava sendo praça. Uma sucessão de dezoito empregos diferentes e tentativa comerciais se seguiram ao seu casamento em 1900, com Emma Centennia Hulbert - e, em 1911, teve que empenhar o relógio a fim de comprar comida para a família.Tendo passado quase toda a vida a rabiscar, esboçar e escrever versos para se divertir, ERB decidiu, neste ponto baixo da vida, quase passando fome, ver se o público receberia tão bem os seus vôos de imaginação, como os recebiam os seus amigos e a sua familia.

Sua primeira história - escrita no verso de folhas de papel timbrado de empresas falidas pois não tinha dinheiro para comprar papel de qualidade - lhe trouxe quatrocentos dólares. Hoje, aquela história, "Uma Princesa de Marte", é aclamada como um ponto de partida para a ficção-cientifica do século XX.A seguir, ERB escreveu um romance histórico. Foi rejeitado. Novamente sem vintém, quase desistiu. Mas uma carta de apenas uma linha, que lhe escreveram os editores, lhe deu ânimo para continuar: "Coragem - não desista!". A próxima história decidiria o seu futuro. Foi Tarzan dos Macacos.Tarzan dos Macacos demonstrou ser um êxito espantoso desde o instante em que apareceu em All-Story Magazine, em 1912, mas trouxe para ERB apenas setecentos dólares. E, como a história tinha surgido inicialmente numa revista popular, foi rejeitada por quase todos os principais editores de livros no país. Entretanto, quando Tarzan dos Macacos foi editado em livro, finalmente, por A.C. McClurg & Company, tornou-se o best-seller de 1914.

Uma torrente de romances vieram a seguir: histórias a respeito do planeta Vênus, histórias sobre os índios apaches, contos de faroeste, comentários sociais, histórias policiais, contos passados na Lua e no centro da Terra. Apareceram mais e mais livros de Tarzan. Finalmente, quase cem livros saíram de autoria de ERB, que se gaba de "não ter a mínima idéia de como se escrevia uma história".
Em 1918, Tarzan chegou à tela. "Tarzan dos Macacos", com Elmo Lincoln no papel principal, foi o primeiro filme da História a obter uma renda bruta de mais de um milhão de dólares. Desde então, produziram-se trinta e nove filmes de Tarzan, cada um deles com grande êxito financeiro. Embora gostasse de caçoar das películas, ERB ficou amargamente desapontado com os filmes de Tarzan. Muitas vezes nem ia vê-los. O seu Tarzan era um homem supremamente inteligente, sensível, verdadeiramente civilizado; heróico, belo e, acima de tudo, livre. O mundo conhece bem a caricatura semi-analfabeta que Hollywood fez de Tarzan.

Em 1919, com sua segurança financeira assegurada, ERB comprou a propriedade do General Harrison Gray Otis, na California, de cerca de duzentos hectares, dando-lhe o nome de "Fazenda Tarzana". Ali, escreveu prodigiosamente e dirigia a empresa de âmbito mundial que é hoje Edgar Rice Burroughs, Inc. Em 1941, apresentou-se como voluntário para ser correspondente de guerra e, finalmente, voltou do Pacífico Sul para casa - na qualidade de o mais idoso correspondente norte-americano - somente após ter sofrido uma série de ataques do coração.Passou o resto de seus anos como semi-inválido, numa casa modesta na Avenida Zelzah, em Encino, na California, onde pousou a pena pela última vez aos 19 de março de 1950. As suas cinzas foram levadas de volta a Tarzana, onde, de acordo com seu próprio desejo, repousam em túmulo sem marca.

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Jean Genet, o mensageiro do Inferno




Jean Genet, o poeta ladrão, explica seus crimes pela poesia

A Praça da Bastilha, em Paris, é uma atração fatal para os criminosos...como o cemitério de Pantin, onde os "gangsters" costumam enterrar-se mutuamente, depois dos ajustes de contas, nas tardes de chuva. Através da porta de vidro de um café miserável, Jean Genet olhava os paralelepípedos esbranquiçados pela neve. Havia ali o traçado dos antigos muros da prisão de Voltaire e do Máscara de Ferro. Adiante, os carrosséis de um parque de diversões e as árvores esqueléticas de um bulevar justificava a pintura eriçada de Bernard Buffet. Genet começou a falar:
- Há quem me considere esnobe porque freqüento tais lugares. Dizem os jornais que Jean Anouilh, na sua última peça, l’Hurluberlu, enumera um poeta pederasta e ladrão entre as atrações do society parisiense, como se eu fosse um dos males da República. Pensando assim, os juízes já me botaram dezoito vezes na cadeia. Essa gente me faz rir. Que é que você me toma?
Um vagabundo alcoolizado rodava em torno de si mesmo, na calçada fronteira, como se tivesse perdido algo e procurasse. O olhar cinzento de Genet pousou no homem:

- Meu verdadeiro “habitat” é aqui. Fora dele, feneço como uma rosa cortada. Os criminosos constituem um universo proibido, no qual as virtudes proverbiais perdem o sentido. O ar que os criminosos respiram é nauseabundo: cheira a sangue e a sexo. Ora, possuindo condições incontroláveis de erotismo, mergulhei no mal com a alma limpa. Fora do crime, não existo. Dentro dele, justifico-me. É neste café que costumo rever os amigos saídos da cadeia. Eles me contam as novidades da prisão, os potins do nosso mundo concentracionário. Se você tivesse chegado um pouco antes, teria conhecido Minosa e Divine, duas camélias do meu jardim. Ambos acabam de cumprir oito meses na Santé, por causa de um roubo. Contaram-me que Gaby, o sátiro do Bois de Boulogne, perdeu a linha diante da guilhotina. Eu sabia que Gaby acabaria decepcionado. Detesto os criminosos covardes, os inconscientes. Mas, enfim, há quanto tempo não nos víamos?

Havia anos que não nos encontrávamos. Talvez desde 1954, quando conhecemos, por acaso William Faulkner, numa saída do metrô. Em Paris, os amigos podem trafegar a vida inteira sem se encontrarem.

- Mas você tem recebido os meus livros? Ainda bem: não perco a esperança de ser traduzido e conhecido no Brasil. Vocês continuam refratários à minha literatura?

Nesse meio tempo, a fama de Genet atravessou a Mancha e o Atlântico, instalando-se confortavelmente em Greenwich-Village, o bairro latino de Nova Iorque. Em Londes, o pessoal de Mayfair criou um teatro íntimo para encenar a última peça do poeta. Mas Paris não teve coragem de montá-la: o Chefe de Polícia alegou que poderia haver distúrbios.

- Nós, os latinos, somos deliciosamente hipócritas. Em todo caso, editam-me aqui, o que já é uma grande concessão ao espírito e à inteligência.

O primeiro livro de Genet, “Pompas Fúnebres”, foi publicado clandestinamente, em 1948, por um editor corajoso.O poeta ainda se encontrava na prisão, cumprindo pena de cinco anos. Tratava-se de um romance sorbre a ocupação da França pelos alemães, mas seus personagens eram invertidos sexuais. Jean Cocteau, Jean Paul Sartre e Albert Camus, impressionados com o talento do autor, solicitaram para ele o perdão do Presidente da República, Vincente Auriol. A ficha de Genet dizia: “furto com violência” e “atentado ao pudor”. Libertado, publicou dois outros livros , escritos na prisão: “Notre Dame dês Fleurs”, novela poética de um submundo social, e “Haute Surveillance”, peça teatral logo encenada com escândalo no Teatro dês Mathurins. Então, Genet começou a sentir as conseqüências mundanas do sucesso literário: os círculos elegantes de Paris disputavam sua presença. A pintora Leonor Fini transformou-o numa atração para o seu apartamento. Os Anchorena, da Argentina, incluíam-no nos seus jantares do Bois do Boulogne, Jacques Fath hospedou-se quinze dias no seu castelo.

- Expunham-me como um animal raro do jardim zoológico. Mas a minha passividade durou pouco. A destruição do presidiário que havia em mim doía-me como se fosse um castigo do castigo. Libertando-me, operavam-me da infância, acordavam-me antes do tempo.

NA ESPANHA, TORNOU-SE UM “PERCEVEJO CONSCIENTE”


Jean Genet retornou ao crime, mas evitando uma volta à cadeia. Suas artes, ele as exercia contra os editores, vendendo três ou quatro vezes os direitos de publicação de um dos seus livros, ou contra as famílias que o convidavam, furtando-lhes objetos preciosos.

- Quanto ao resto, o ambiente era favorável: há mais vício na alta sociedade do que em Pigalle ou em Montparnasse. Monsieur Anouilh pode falar: é o seu direito. Mas fala por despeito.

Quando o editor Gallimard publicou, há alguns anos atrás, as obras completas de Genet, compreendendo seis volumes, pediu um prefácio a Jean-Paul Sartre. O filósofo existencialista entuasiasmou-se e escreveu seiscentas páginas datilografadas. O católico François Mauriac qualificou-os de “autores escatológicos”. Um Ministro do Interior quis mandar retirar a edição do mercado, mas não chegou a fazê-lo.

- Sempre tive paciência com a Polícia. Nós nos entendemos: nada se parece mais com um criminoso do que um policia. Somos irmãos: em nossas veias corre a mesma sede de sangue e de violência. Nunca me diverti tanto como uma vez em Nice, no Comissariado onde me detinham. Dormia comigo um polícia, belo, forte e confiante. Furtei-lhe cem francos, durante a noite. Na manhã seguinte, o rapaz procurava o dinheiro por toda parte, nos lugares mais estranhos. Você já viu a cara de um roubado? Cara de roubado dá a impressão de que ele está com cólicas. Fingindo ignorância, eu dizia ao rapaz: vai lá no fundo e te alivia, acho que estás doente. Essa reflexão me salvou de mim mesmo e fiquei com o dinheiro.
Quantos anos Genet terá vivido do roubo? Com a cabeça nua oculta na gola da gabardine, ele olhava de novo para a praça da Bastilha. Um rapaz jogava tac-tac no café e a campainha da máquina soava a cada momento.

- Não sou um revoltado contra a sociedade, mas estou odiando esse rapaz com essa máquina. Adotei o crime aos 22 anos, por indolência. Eu acabara de sair de um orfanato, onde me educaram. Quando digo educaram, falo sério. Ensinaram-me o latim, o grego, a filosofia e a pederastia. Continuo fiel a todas essas matérias, mas o roubo foi idéia minha, uma facilidade excitante. Estávamos em 1932 e tive de fugir para a Espanha, onde continuei roubando. Vivi, nas ruas de Barcelona, Madri, Cádiz e Gilbratar, os mais belos momentos da minha vida. Nessa época, a Espanha estava coberta de vermes: os seus mendigos. Eles andavam de povoado em povoado, na Andaluzia porque tinha sol, na Catalunha porque era rica e em Madri por causa do vício. Tornei-me, pois, um percevejo consciente. Às vezes, dormíamos seis numa cama só. Porque o criminoso profissional não dorme ao relento; sempre encontra um canto onde se aninhar.

PARA ELE O BRASIL ERA UMA ILHA D’ALÉM MAR E D’ALÉM SOL

Da Espanha, Genet voltou à França, com os republicanos derrotados por Franco, sendo internado por poucos dias num campo de concentração próximo de Bayonne.

- A polícia francesa retirou-me do campo para trancafiar-me na cadeia, eu tinha condenação de dois anos. Antes de chegar a Paris, consegui escapar de meus guardas e corri a Europa, na direção de Praga. Então, o aparelho militar alemão começou a funcionar e, com ele, a espionagem. Na companhia de um amigo espanhol, chamado Saliciano, furtei os segredos militares de um coronel iuguslavo sediado em Praga. Mas a quem vender tais segredos? À Alemanha? À Itália? Acabamos jogando fora os papéis. Saliciano me dizia que, se insistíssemos na espionagem, correríamos o risco de escapar à abjeção em que vivíamos. A espionagem é um processo do qual os Estados sentem tanta vergonha que procuram enobrecê-lo para justificá-lo. Dessa nobreza, fui beneficiado.

Voltando mais uma vez à França, nas vésperas da guerra, Genet encontrou o país mobilizado:

- Tratatava-se de vestir uma farda e de ir dormir dentro da linha Maginot, que os alemães souberam contornar: em seis meses de guerra, não demos nenhum tiro. Desmobilizado por Petain, caí na prisão imediatamente. Foi quando escrevi “Lê Journal d’Um Voleur” (Diário de um ladrão). A prisão obrigou-me a debruçar-me sobre o papel em branco. Só os que não vivem podem escrever. A idéia de uma obra literária me faria dar de ombros. Eu preferia viver. Mas, durante a ocupação, as prisões eram horrorosas. Não havia, sequer, a possibilidade de contato humano. Na solidão de minha cela, o mundo era uma torrente, um rio de forças unidas que me conduziam ao mar da morte. Tentando viver, comecei revivendo meus dias gloriosos de libertinagem. Era uma forma de dar voz ao que emudecera. Veja: naqueles dias, eu pensava muito no Brasil, sonhava com o Brasil, e, na minha idéia, o Brasil era uma ilha d’além mar e d’além sol, onde os homens, atléticos, de fisionomias gastas, acocoravam-se em torno de fogueiras, para descascar, em serpentinas, laranjas enormes, como os antigos imperadores romanos nas gravuras.

Tentando explicar Jean Genet, o filósofo Jean-Paul Sartre escreveu: “A Poesia de Genet não é arte literária, é um meio de salvação. Na maioria das vezes, seus poemas se reduzem a uma palavra e não destinam ao público: é uma maneira de viver. Magnificando a abjeção para poder suportá-la, Genet endereça seus poemas a uma ausência divina. Saberá, ao menos, que é poeta? Não sabe. Mas reconhece que se defende da morte. Criança abandonada, foge à sua maldição original e busca seu próprio ser.” Eu preferiria Apolinaire:

“O vicio em tudo isso
não passa de ilusão
que somente enganar
às almas vulgares.”


Justino Martins para a Revista Manchete numero 360, de 14/03/1959.