domingo, 15 de junho de 2008

A Arte e Isadora Duncan


Em São Francisco, em 1878, Isadora O’Gorman Duncan, senhora muito ativa e que tocava piano com muito gosto, resolveu divorciar-se do marido, o distinto senhor Duncan, cuja conduta foi, ao que parece, muito pouco delicada. A questão afetou-lhe tanto os nervos, que disse aos filhos que o estômago não suportava senão um pouco de champanha e ostras. E no meio do ressentimento, das acusações e dos desgostos domésticos – num mundo de pensões iluminadas e gás e mantidas por belezas meridionais arruinadas, magnatas ferroviários e porta giratórias, de bebedores de uísque que mascavam cravo para que lhes notassem o mau hálito e escarradeiras de lata, carros de quatro rodas e cinturas justas, de desocupados e vestidos compridos, de muitos babados e cauda (num mundo no qual salas de conferências e de concertos davam direito a chamar-se senhoras cultas e constituíam o centro da vida daquele que tivesse aspirações) – teve uma filha a que deu o próprio nome:Isadora.

O rompimento com o senhor Duncan e a descoberta de sua duplicidade, converteram a senhora Duncan em feminista fanática, em atéia e apaixonada entusiasta das conferências e artigos de Bob Ingersoll. Onde estava escrito Deus, lia Natureza; onde estava escrito Dever, beleza; e somente o homem é vil.A Senhora Duncan lutou muito para criar seus filhos no amor à beleza e no ódio aos coletes, às convenções e às leis ditadas pelos homens. Deu lições de piano, fez bordados e teceu chalés e luvas. Os Duncans estavam sempre cheios de dívidas. Deviam sempre o aluguel da casa.As primeiras lembranças de Isadora eram as de adulações aos vendeiros, açougueiros e proprietários de casas e a venda de gulodices que sua mãe fazia, de porta em porta, e ajudando a tirar as maletaas por uma porta dos fundos, quando tinham de passar calote nas pensões, uma atrás das outras, todas pobres e com muitas pretensões.Os pequenos Duncans e a mãe formavam um clã: os Duncans contra o mundo grosserio e sórdido. Não eram católicos nem prostestantes, nem quakers, nem batistas; eram artistas.Ainda pequenos, os meninos chamavam a atenção da vizinhança, dando representações teatrais num celeiro.

Elizabeth, a mais velha, dava lições de danças de salão. Como eram do Oeste, o mundo lhes parecia uma quimera. Não se envergonhavam de mostrar-se em público. Isadora tinha olhos verdes, cabelos avermelhados e um pescoço e uns braços magníficos. Como não podia pagar as lições de dança, inventou sua própria dança.Mudaram-se para Chicago. Isadora dançou na festa organizada pelo Washington Post, no jardim do templo maçônico e conseguiu um emprego de cincoenta dólares por semana. Dançava nos clubes. Foi ver Augustin Daly e disse-lhe que havia descoberto a Dança. Em Nova Iorque, fez o papel de fada, numa representação de Sonho de uma Noite de Verão, com Ada Rehan.Os Duncans seguiram para Nova Iorque. Alugaram uma grande sala em Carnegie Hall, puseram colchões nos cantos, penduraram cortinas nas paredes e fundaram o primeiro estúdio de Greenwich Village. Estavam sempre com medo de que a policia os apanhassem. Passavam a vida bajulando os comerciantes que lhes apresentavam as contas, fazendo a dona esperar pelo aluguel e arrancando dinheiro dos ricos. Isadora organizou recitais em Ethelbert Nevin. Interpretava, dançando, os poemas de Omã Khayyam, para as senhoras da sociedade de Newport.

Quando o Hotel Windsor se incendiou, perderam todas as cousas, inclusive as contas que deviam, e embarcaram para Londres num navio de transporte de gado, fugindo do materialismo da América.No Museu Britânico, descobriram os gregos. A Dança era grega.Sob as fumarentas chaminés de Londres, nas praças cobertas de fuligem, dançaram com túnicas de musseline, copiaram atitudes das ânforas gregas, percorreram galerias de arte, assistiram a conferências, concertos e representações, encheram-se, num inverno, de cincoenta anos de cultura vitoriana.Sempre que eram postos para fora, por não pagar aluguel, Isadora, os levava para os melhores hotéis, alugava uma série de salas e ordenava aos criados que se apressassem em servir lagosta, champanha e frutas que não fossem da estação. Nada era bom demais para os artistas, os Duncans, os gregos. E a frescura de Isadora encantava à Londres do século dezenove. Dançavam em festas de aristocráticas mansões de Kesington e Mayfair. Os ingleses, do Príncipe Eduardo para baixo, sentiam-se escravos de sua beleza pré-rafaelita, de sua inocência cheia de vida, de seu sotaque californiano.

Depois de Londres foi Paris da Exposição Universal de 1900. Isadora dançou com Louie Fuller. Era ainda uma virgem muito tímida, para compreender as insinuações de um Rodin, o grande mestre, que então se achava inteiramente desconcertado com as extravagâncias do bando de moças aloucadas e homossexuais de Louie Fuller. Os Duncans eram vegetarianos, desconfiavam da vulgaridade, dos homens e do materialismo. Raymond fez sandálias para todos. Isadora, sua mãe e seu irmão Raymond, correram a Europa em sandálias, com véus à cabeça e vivendo a vida grega da natureza numa sinfonia de contas a pagar.O primeiro recital de Isadora teve lugar num teatro de Budapeste. Depois disto, tornou-se a diva e teve uma aventura com um ator. Em Munique, os estudantes desatrelaram os cavalos do seu carro. Tudo eram flores, aplausos e champanha. Fez furor em Berlim. Com o dinheiro que ganhou na excursão artística pela Alemanha, levou todos os Duncans à Grécia.Chegaram num bote de pesca a Itaca.

No Partenon, posaram para os fotógrafos. Dançaram no Teatro de Dionisios. Ensinaram um bando de meninos esfarrapados a cantar o antigo coro das Suplicantes. Construíram um templo para morar, numa colina que dominava as ruínas da velha Atenas. Mas na colina não havia água e antes que o templo estivesse concluído o dinheiro acabou.Tiveram que hospedar-se no Hotel d’Angleterre, onde chegaram a dever uma boa soma. Quando o crédito acabou, levaram o coro para Berlim e representaram os Suplicantes em grego antigo. Ao ver Isadora envolta em seu peplo, caminhando pelo Tiergarten à frente dos meninos todos vestindo túnicas gregas, o cavalo da imperatriz assustou-se e atirou Sua Majestade ao chão.Isadora ficou na moda. Chegou a São Petesburgo a tempo de ver o funeral noturno dos revolucionários mortos a tiro em frente ao Palácio de Inverno, em 1905. Teve muita pena.

Ela era norte-americana como Walt Whitman. Os governos que cometem assassinatos não eram de sua classe. Sua gente eram os manifestantes. Os artistas nunca estavam do lado das metralhadoras. Era uma norte-americana de túnica grega estava com o povo.Em São Petersburgo, que ainda estava enfeitada pelo balé século dezoito da corte do Rei Sol, suas danas foram consideradas perigosas pelas autoridades.Na Alemanha, fundou uma escola com auxilio de sua irmã Elizabeth, que teve a seu cargo toda a organização; e deu à luz uma filho de Gordon Craig.Fez na América a entrada triunfal que sempre havia planejado e deixou os filisteus consternados com uma excursão artística. Seus companheiros eram detidos pela policia, por vestirem túnicas gregas. Na democrática América não havia liberdade para a Arte.O regresso a Paris foi uma apoteose: Arte significava Isadora. No funeral do Príncipe de Polignac conheceu o milionário (rei da máquina de costura) que seria o futuro provedor e financiador da sua escola. Foi com ele no seu iate (tudo o que Isadora fazia era Arte) dançar no Templo de Paeston, só para ele. Mas chovia e os músicos ficaram molhados até os ossos e todos preferiram embebedar-se.A vida do milionário era Arte. Arte era tudo o que Isadora fazia.

De volta, pela segunda vez, ao seu país, escandalizou, com sua dança, as velhas senhoras dos clubes e as solteironas aficionadas das artes. Também já mostrava no ventre o filho do milionário. E deu para beber e avançar até o palco, discutindo com os artistas.Isadora estava no auge da glória e do escândalo, do poder e da riqueza. A escola progredia, o milionário ia construir um teatro em Paris, os Duncans eram sacerdotes de um culto (Arte era o que Isadora fazia).O automovel que, em Paris, levava seus filhos, parou numa das pontes do Sena. Esquecendo-se de que o carro estava com o cambio ligado, o chofer deu a partida. O motor arrancou e o automóvel caiu no rio.Os meninos e a ama afogaram-se.O resto da vida, Isadora viveu num desespero, entre alvoroços de escândalos, caras irônicas de jornalistas, ameaças de procuradores, demandas de gerentes de hotéis que apresentavam contas atrasadas.

Isadora bebia demais, não podia deixar os jovens tranqüilos, usava o cabelo com vários tons de vermelho, nunca se preocupava em pintar-se como devia. Descuidava dos vestidos e jamais soube em que gastava dinheiro. Mas a impressão de saúde enchia a sala, quando a figura de braços maravilhosos avançava, lentamente, do fundo do cenário. Não sabia o que era medo; era uma grande bailarina.Em São Francisco, sua cidade natal, os políticos não permitiram que ela dançasse no Teatro Grego, que haviam construído por sua influência. Onde ia, ofendia aos filisteus. Quando a guerra estalou, dançou a Marselhesa. Isso, no entanto, pareceu irreverente e sentiram-se ofendidos por não haver renegado a Wagner, nem ter mostrado respeitáveis instintos de matança.Em sua excursão pela América do Sul, ligou-se com homens, em todas as partes: um pintor espanhol, alguns lutadores de boxe, um foguista de navio, um poeta brasileiro - deve ser João do Rio (Paulo Barreto), ao menos pelo que se pode deduzir das refrencias que ele faz a Isadora, em sua autobiografia. Procovou escândalos nos salões de tango. Chamou os argentinos de negros do palco. Embebedou-se de triunfo, em Montevidéu e no Brasil. Mas, enquanto tinha dinheiro, não podia evitar e gastava a rodo com dançarinos de tango, donativos, ceias depois do espetáculo e toda uma seqüência de loucuras. Tudo por sua conta. Os empresários aborreciam-na. Não sabia o que era, não se envergonhava com as murmurações, nem com as manchetes dos vespertinos.

Quando outubro levantou o pano do Velho Mundo, lembrou-se de São Petersburgo, dos esquifes deslisando pelas ruas silenciosas, dos rostos pálidos e dos punhos cerrados daquela noite e dançou a Marcha Eslava, pondo um lenço vermelho diante do nariz das velhas senhores de Boston, no Symphony Hall.Mas quando foi à Rússia, com a esperança de encontrar uma nova escola de trabalho, uma vida livre – viu que tudo ali era grande demais, difícil demais.Quando já lhe era impossível obter mais dinheiro para a Arte, para as pessoas que comiam e bebiam nos seus aposentos de hotéis, para alugar Rolls-Royces e para a manutenção de seus discípulos e alunos – Isadora foi para a Riviera escrever suas memórias, afim de arrancar um pouco de dinheiro do publico norte-americano que, depois da guerra, havia despertado para os gregos, o escândalo e a Arte, e ainda tinha dólares para gastar.

Alugou um estúdio em Nice, mas nunca pode pagar o aluguel. Tinha brigado com o milionário. Suas jóias, sua famosa esmeralda, seu manto de arminho, seus objetos de arte, foram parar em casas de penhor ou em mãos de usurários. Tudo o que lhe restava eram os velhos cenários azuis que tinham visto seus grandes triunfos, uma carteira de couro vermelho e um velho abrigo de pele, descosturado nas costas. Não podia deixar de beber ou de lançar-se nos braços do primeiro que lhe aparecesse. Quando dispunha de dinheiro, organizava uma festa. Tentou afogar-se e um oficial da marinha inglesa tirou-a do mediterrâneo batido de luar.Um dia, encontrou num pequeno restaurante de golfe, Juan, um jovem italiano, que tinha uma garagem e dirigia uma pequena Bugatti de corrida. Disendo-lhe que talvez se decidisse a comprar o automóvel, pediu-lhe que fosse a seu estúdio, para que a levasse a dar um passeio. Seus amigos não queriam que fosse, diziam que o italiano era um simples mecânico, mas Isadora insistiu. Tinha bebido uns copos (no mundo só lhe interessavam a bebida e os jovens simpáticos...), ligou-se ao italiano, lançou para trás a echarpe de longas franjas para envolver o pescoço, com seu largo gesto habitual, virou a acabeça e disse com o sotaque californiano que jamais pode esquecer:“Adieu, mês amis, je vais à la glorie «O mecânico deu a partida e o carro arrancou. A pesada echarpe, que pendia para fora do carro, enroscou-se numa roda, puxou violentamente a cabeça de Isadora para o lado..O automóvel deteve-se instantaneamente. Tinha o nariz arrebentado, o pescoço pendendo...Estava morta.


(Extraído de "Dinheiro Graúdo" – John dos Passos – edição 1938)

domingo, 16 de dezembro de 2007

A origem do Natal, ou Como uma data fajuta faz a cabeça dos cristãos

A maioria dos cristão desconhece a origem do Natal. Na verdade, a data de 25 de dezembro está ligada às festas pagãs, sem relação nenhuma com Jesus Cristo pois na verdade este dia era dedicado ao deus Mitra.

A origem da árvore de Natal também vem de época bem remota.
Começou na Antiga Babilônia com Nimrod (que quer dizer Rebelde), neto de Cã, filho de Noé. Fundador da Torre de Babel, Nimrod casou-se com a própria mãe, Semiramis, que após a morte do filho-marido, começou a propagar sua adoração, alegando que um grande pinheiro havia crescido da noite para o dia, de uma pedaço de árvore morta, que simbolizava o desabrochar da morte de Ninrod para uma nova vida. E assim, anualmente, no dia do aniversário do falecido filho/marido, ela dizia que este visitava a árvore “sempre viva” e deixava presentes nela.

O dia de nascimento de Nimrod era 25 de dezembro. Sabe-se também que o carvalho era sagrado entre os druidas, as palmeiras entre os egípcios, e o abeto entre os romanos, que era decorado com cerejas negras durante as Saturnais (ou Saturnália). Acreditava-se também que o deus escandinavo Odin dava presentes na época do Natal a quem se aproximasse do seu Abeto Sagrado.

Após sua morte, Semiramis e seu filho/marido Nimrod converteram-se também em objeto de adoração, tendo sido adorados por diversos nomes em lugares diferentes como “Rainha dos Céus” dos Babilônios e Nimrod, por sua vez, converteu-se em “Divino Filho do Céu” passando a ser considerado como”filho de Baal, o Deus-Sol”.

Com o decorrer dos séculos, mãe e filho se transformaram-se em objetos principais de adoração e a sua veneração espalhou-se pelo mundo antigo: “A mãe a criança”, “Virgem e o menino”, recebendo vários nomes como Isis e Osíris no antigo Egito, Cibele e Deois na Ásia, Fortuna e Júpiter na Roma Pagã e em outros lugares do mundo, criando a imagem de “mãe de Deus”, muito tempo antes do nascimento de Jesus Cristo.

O mundo pagão celebrava o dia 25 de dezembro como o dia do nascimento de Isis (ou “Rainha do Céu) muito tempo antes do Imperador Constantino torná-la data comemorativa do nascimento de Cristo. Os persas comemoravam este período como o nascimento de Mitra, o Deus Sol, e acreditavam que um pequeno sol nascia sob a forma de um bebê, comemorando em 25 de dezembro o Dia do Nascimento do Sol Invicto (que os romanos chamavam de Natalis Solis Invicti). Jantares e árvores verdes ornamentadas para espantar os maus espírito da escuridão eram comuns e presentes de bom agouro eram ofertados aos amigos.

Os Druidas, que tiveram vários de seus rituais apropriados pela Igreja Católica de Roma, comemoravam este dia, e as festividades aconteciam ao redor do monumento de Stonehenge, construído em 3100 a.C. para marcar a trajetória do Sol ao longo do ano.

Com o crescimento da religião católica, que incorporou em sua ortodoxia vários costumes pagãos, principalmente para ganhar adeptos, Constantino aproveitou esta data, onde se comemorava a festividade da brunária (25 de dezembro), as Saturnais (ou Saturnália) de 17 a 24 de dezembro - celebrando o solstício de inverno que é quando o sol atinge o seu afastamento máximo da linha do equador, tornando as noites mais longas e marcando o início do inverno, e o “Novo Sol”, e as Calendas, quando se iniciava um ano novo -, dando assim um golpe político para trazer a massa de cristãos recém-convertidos ao cristianismo e aproveitando a influencia do maniqueísmo pagão que identificava o filho de Deus como o Sol físico, decretando que esta festa do dia 25 de dezembro (dia do nascimento do deus-sol, ou solstício), seria a data comemorativa do nascimento do filho de Deus. Desta forma o”Natal” – ou seja, dia do nascimento-, se enraizou no mundo ocidental.

As Saturnais era orgias carnavalescas (ou seja, “da carne”), onde havia muito vinho e depravação, em homenagem ao deus Saturno. Durante as Saturnais a orgia era comandada por um chefe de folia, uma espécie de Rei Momo, um homem gordo, que representava Saturno, ceias fartas, troca de presentes e a queima de velas.

Juliano, o Apóstata, sobrinho de Constantino, que também era adorador de Mitra, disse a respeito desta celebração do dia 25 de dezembro:

“Antes do início do ano, no final do mês cujo nome é segundo Saturno (dezembro), celebramos em honra de Hélios (o Sol), os jogos mais esplendidos e dedicamos o festival ao Invencível Sol. Que os deuses governantes me concedam louvar e sacrificar neste festival. E sobre os outros, que Hélios mesmo, o rei de todos, conceda-me isto”

É importante ressaltar que este costume foi adotado a partir de 336 d.C. e é desta época o início da adoração da “virgem e o menino”, trazidos pelos novos cristãos, pagãos recém convertidos, que continuaram a adorar o Sol, festejando o nascimento do astro-rei, agora transformada na celebração do nascimento de Jesus Cristo. Desta forma, o paganismo foi introduzido dentro do cristianismo.

Interessante é que Jesus Cristo, conforme a bíblia sagrada diz, não pediu que se comemorasse seu nascimento, mas sim sua morte conforme relatado em Lucas 22:19, onde diz: “E, tomando o pão e havendo dado graças, partiu-o e deu-lho, dizendo: Isto é o meu corpo, que por vós é dado; fazei isto em memória de mim”.

sábado, 23 de junho de 2007

Dinheiro e sexo - As supremas ilusões

Existem duas ilusões bastante diferenciadas em nossa cultura – uma relacionada com o dinheiro e a outra com o sexo. A ilusão de que o dinheiro é onipotente, que ele pode solucionar todos os problemas e trazer ao seu proprietário toda a alegria e felicidade, é responsável pelo culto ao dinheiro.
De maneira similar, o culto ao sexo provém de uma crença na onipotência do sexo. Na opinião daqueles que partilham destas ilusões, o encanto sexual, assim como o dinheiro, é um poder que pode ser usado para abrir as portas do céu. Para muita gente, dinheiro e sexo tornaram-se as divindades supremas.
Todo paciente esquizóide possui a ilusão de que o sexo é onipotente. Toda moça esquizóide, embora cônscia de não ser aclamada “deusa do amor”, tem uma profunda convicção da irresistibilidade do seu encanto sexual. Algumas o “demonstram”, ao passo que outras tem este sentimento encoberto pelo medo e pela ansiedade. Esta ilusão dá uma uma importância indevida ao sexo, negligenciando assim a personalidade total.
Sexo e personalidade são dois lados da mesma moeda. A tentativa de divorciar o sexo de sua base na personalidade total conduz à ilusão da "sofisticação" sexual. O "sofisticado" sexual utiliza o sexo como meio de se relacionar ou como instrumento de poder. Esta utilização do sexo distorce a sua função. Em vez de se constituir numa expressão de sentimento pelo parceiro sexual, ele se torna uma manobra para fazer inflar o ego da pessoa e estabelecer a sua superioridade.
O homem que desempenha o papel do irresistível "Casanova" procura corresponder a uma imagem egóica de si próprio como "grande amante". A mulher que se julga sexy acredita que o seu encanto sexual demonstra a superioridade de sua feminilidade.
O fato de o sexo ser uma expressão de sentimento e que um corpo sem sentimento é desprovido de sexualidade são verdades que o individuo esquizóide ignora. A ilusão do sexualismo torna erroneamente a aparência como se fosse o conteúdo, e confunde "sofisticação" sexual com maturidade sexual. Esta ilusão, assim como muitas outras, evolui com um exagero da situação da infância. Ela representa uma fixação no nível edipiano e é uma ampliação dos sentimentos incestuosos entre pais e filhos.

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O comportamento destrutivo visto hoje em dia no alcoolismo, no vício em drogas, na deliqüência e na promiscuidade, reflete o grau até onde os indivíduos em nossa cultura tornaram-se isolados, desligados e desesperados. Pouca diferença faz se a depressão é real ou imaginária, exceto que no desespero real a estratégia de defesa é interrompida logo que a emergência é ultrapassada. O indivíduo esquizóide, todavia, vive num estado contínuo de emergência. A sorte específica que ele teme, pode ser determinada a partir do seu comportamento, uma vez que este comportamento constitui simultaneamente um desafio à sua sorte e uma tentativa de precaver-se contra as conseqüências desastrosas.
Quando o individuo esquizóide age de forma tal, ele tenta explicar seu isolamento, a sua inutilidade e o seu vazio.

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Continua.

Extraido de "O corpo traído - Dr. Alexander Lowen, edição 1979"

sexta-feira, 1 de junho de 2007

11 coisas que estudantes não aprenderiam na escola

Dizem que o texto abaixo foi dito por Bill Gates em uma conferência numa escola secundária sobre 11 coisas que estudantes não aprenderiam na escola. Fala sobre como a política do “sentir-se bem” tem criado uma geração de crianças sem noção da realidade e como esta política tem levado as pessoas a falharem em suas vidas posteriores à escola.
A vida pode ser cruel, e a crueldade pode atingir qualquer um, principalmente aqueles que não tem os pés firmes no chão

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Regra 1: A vida não é fácil - acostume-se com isso.

Regra 2: O mundo não está preocupado com a sua auto-estima. O mundo espera que você faça alguma coisa útil por ele ANTES de sentir-se bem com você mesmo.

Regra 3: Você não ganhará US$ 40,000 por ano assim que sair da escola. Você não será vice-presidente de uma empresa com carro e telefone à disposição antes que você tenha conseguido comprar seu próprio carro e telefone.

Regra 4: Se você acha seu professor rude, espere até ter um chefe. Ele não terá pena de você.

Regra 5: Fritar hambúrgueres não está abaixo da sua posição social. Seus avós têm uma palavra diferente para isso - eles chamam de oportunidade.

Regra 6: Se você fracassar, não é culpa de seus pais, então não lamente seus erros, aprenda com eles.

Regra 7: Antes de você nascer seus pais não eram tão chatos como agora. Eles só ficaram assim por pagar as suas contas, lavar suas roupas e ouvir você falar o quanto você mesmo era legal. Então antes de salvar o planeta para a próxima geração querendo consertar os erros da geração dos seus pais, tente limpar seu próprio quarto.

Regra 8: Sua escola pode ter eliminado a distinção entre vencedores e perdedores, mas a vida não é assim. Em algumas escolas você repete mais de um ano e tem quantas chances precisar até acertar. Isto não se parece com absolutamente NADA na vida real.

Regra 9: A vida não é dividida em semestres. Você não terá sempre os verões livres e é pouco provável que outros empregados o ajudarão a cumprir suas tarefas no fim de cada período.

Regra 10: Televisão NÃO É vida real. Na vida real, as pessoas têm que deixar o barzinho ou a cafeteria e ir trabalhar.

Regra 11: Seja legal com os "Nerds". Existe uma grande probabilidade de você vir a trabalhar para um deles.

quinta-feira, 31 de maio de 2007

Egar Rice Burroughs, autor de Tarzan dos Macacos












Desde o dia em que nasceu, 1 de setembro de 1875, em Chicago, até àquele em que ofereceu a sua primeira história a All-Story Magazine, em 1911, Edgard Rice Burroughs fracassou em quase tudo o que tentou. Freqüentou meia duzia de escolas públicas e particulares antes de se formar na Academia Militar de Michigan. Não tendo conseguido designação para um posto em nenhuma unidade militar - nem mesmo no exército chinês - acabou sentando praça no Sétimo Batalhão de Cavalaria dos Estados Unidos. Mas, ao dar baixa, continuava sendo praça. Uma sucessão de dezoito empregos diferentes e tentativa comerciais se seguiram ao seu casamento em 1900, com Emma Centennia Hulbert - e, em 1911, teve que empenhar o relógio a fim de comprar comida para a família.Tendo passado quase toda a vida a rabiscar, esboçar e escrever versos para se divertir, ERB decidiu, neste ponto baixo da vida, quase passando fome, ver se o público receberia tão bem os seus vôos de imaginação, como os recebiam os seus amigos e a sua familia.

Sua primeira história - escrita no verso de folhas de papel timbrado de empresas falidas pois não tinha dinheiro para comprar papel de qualidade - lhe trouxe quatrocentos dólares. Hoje, aquela história, "Uma Princesa de Marte", é aclamada como um ponto de partida para a ficção-cientifica do século XX.A seguir, ERB escreveu um romance histórico. Foi rejeitado. Novamente sem vintém, quase desistiu. Mas uma carta de apenas uma linha, que lhe escreveram os editores, lhe deu ânimo para continuar: "Coragem - não desista!". A próxima história decidiria o seu futuro. Foi Tarzan dos Macacos.Tarzan dos Macacos demonstrou ser um êxito espantoso desde o instante em que apareceu em All-Story Magazine, em 1912, mas trouxe para ERB apenas setecentos dólares. E, como a história tinha surgido inicialmente numa revista popular, foi rejeitada por quase todos os principais editores de livros no país. Entretanto, quando Tarzan dos Macacos foi editado em livro, finalmente, por A.C. McClurg & Company, tornou-se o best-seller de 1914.

Uma torrente de romances vieram a seguir: histórias a respeito do planeta Vênus, histórias sobre os índios apaches, contos de faroeste, comentários sociais, histórias policiais, contos passados na Lua e no centro da Terra. Apareceram mais e mais livros de Tarzan. Finalmente, quase cem livros saíram de autoria de ERB, que se gaba de "não ter a mínima idéia de como se escrevia uma história".
Em 1918, Tarzan chegou à tela. "Tarzan dos Macacos", com Elmo Lincoln no papel principal, foi o primeiro filme da História a obter uma renda bruta de mais de um milhão de dólares. Desde então, produziram-se trinta e nove filmes de Tarzan, cada um deles com grande êxito financeiro. Embora gostasse de caçoar das películas, ERB ficou amargamente desapontado com os filmes de Tarzan. Muitas vezes nem ia vê-los. O seu Tarzan era um homem supremamente inteligente, sensível, verdadeiramente civilizado; heróico, belo e, acima de tudo, livre. O mundo conhece bem a caricatura semi-analfabeta que Hollywood fez de Tarzan.

Em 1919, com sua segurança financeira assegurada, ERB comprou a propriedade do General Harrison Gray Otis, na California, de cerca de duzentos hectares, dando-lhe o nome de "Fazenda Tarzana". Ali, escreveu prodigiosamente e dirigia a empresa de âmbito mundial que é hoje Edgar Rice Burroughs, Inc. Em 1941, apresentou-se como voluntário para ser correspondente de guerra e, finalmente, voltou do Pacífico Sul para casa - na qualidade de o mais idoso correspondente norte-americano - somente após ter sofrido uma série de ataques do coração.Passou o resto de seus anos como semi-inválido, numa casa modesta na Avenida Zelzah, em Encino, na California, onde pousou a pena pela última vez aos 19 de março de 1950. As suas cinzas foram levadas de volta a Tarzana, onde, de acordo com seu próprio desejo, repousam em túmulo sem marca.

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Jean Genet, o mensageiro do Inferno




Jean Genet, o poeta ladrão, explica seus crimes pela poesia

A Praça da Bastilha, em Paris, é uma atração fatal para os criminosos...como o cemitério de Pantin, onde os "gangsters" costumam enterrar-se mutuamente, depois dos ajustes de contas, nas tardes de chuva. Através da porta de vidro de um café miserável, Jean Genet olhava os paralelepípedos esbranquiçados pela neve. Havia ali o traçado dos antigos muros da prisão de Voltaire e do Máscara de Ferro. Adiante, os carrosséis de um parque de diversões e as árvores esqueléticas de um bulevar justificava a pintura eriçada de Bernard Buffet. Genet começou a falar:
- Há quem me considere esnobe porque freqüento tais lugares. Dizem os jornais que Jean Anouilh, na sua última peça, l’Hurluberlu, enumera um poeta pederasta e ladrão entre as atrações do society parisiense, como se eu fosse um dos males da República. Pensando assim, os juízes já me botaram dezoito vezes na cadeia. Essa gente me faz rir. Que é que você me toma?
Um vagabundo alcoolizado rodava em torno de si mesmo, na calçada fronteira, como se tivesse perdido algo e procurasse. O olhar cinzento de Genet pousou no homem:

- Meu verdadeiro “habitat” é aqui. Fora dele, feneço como uma rosa cortada. Os criminosos constituem um universo proibido, no qual as virtudes proverbiais perdem o sentido. O ar que os criminosos respiram é nauseabundo: cheira a sangue e a sexo. Ora, possuindo condições incontroláveis de erotismo, mergulhei no mal com a alma limpa. Fora do crime, não existo. Dentro dele, justifico-me. É neste café que costumo rever os amigos saídos da cadeia. Eles me contam as novidades da prisão, os potins do nosso mundo concentracionário. Se você tivesse chegado um pouco antes, teria conhecido Minosa e Divine, duas camélias do meu jardim. Ambos acabam de cumprir oito meses na Santé, por causa de um roubo. Contaram-me que Gaby, o sátiro do Bois de Boulogne, perdeu a linha diante da guilhotina. Eu sabia que Gaby acabaria decepcionado. Detesto os criminosos covardes, os inconscientes. Mas, enfim, há quanto tempo não nos víamos?

Havia anos que não nos encontrávamos. Talvez desde 1954, quando conhecemos, por acaso William Faulkner, numa saída do metrô. Em Paris, os amigos podem trafegar a vida inteira sem se encontrarem.

- Mas você tem recebido os meus livros? Ainda bem: não perco a esperança de ser traduzido e conhecido no Brasil. Vocês continuam refratários à minha literatura?

Nesse meio tempo, a fama de Genet atravessou a Mancha e o Atlântico, instalando-se confortavelmente em Greenwich-Village, o bairro latino de Nova Iorque. Em Londes, o pessoal de Mayfair criou um teatro íntimo para encenar a última peça do poeta. Mas Paris não teve coragem de montá-la: o Chefe de Polícia alegou que poderia haver distúrbios.

- Nós, os latinos, somos deliciosamente hipócritas. Em todo caso, editam-me aqui, o que já é uma grande concessão ao espírito e à inteligência.

O primeiro livro de Genet, “Pompas Fúnebres”, foi publicado clandestinamente, em 1948, por um editor corajoso.O poeta ainda se encontrava na prisão, cumprindo pena de cinco anos. Tratava-se de um romance sorbre a ocupação da França pelos alemães, mas seus personagens eram invertidos sexuais. Jean Cocteau, Jean Paul Sartre e Albert Camus, impressionados com o talento do autor, solicitaram para ele o perdão do Presidente da República, Vincente Auriol. A ficha de Genet dizia: “furto com violência” e “atentado ao pudor”. Libertado, publicou dois outros livros , escritos na prisão: “Notre Dame dês Fleurs”, novela poética de um submundo social, e “Haute Surveillance”, peça teatral logo encenada com escândalo no Teatro dês Mathurins. Então, Genet começou a sentir as conseqüências mundanas do sucesso literário: os círculos elegantes de Paris disputavam sua presença. A pintora Leonor Fini transformou-o numa atração para o seu apartamento. Os Anchorena, da Argentina, incluíam-no nos seus jantares do Bois do Boulogne, Jacques Fath hospedou-se quinze dias no seu castelo.

- Expunham-me como um animal raro do jardim zoológico. Mas a minha passividade durou pouco. A destruição do presidiário que havia em mim doía-me como se fosse um castigo do castigo. Libertando-me, operavam-me da infância, acordavam-me antes do tempo.

NA ESPANHA, TORNOU-SE UM “PERCEVEJO CONSCIENTE”


Jean Genet retornou ao crime, mas evitando uma volta à cadeia. Suas artes, ele as exercia contra os editores, vendendo três ou quatro vezes os direitos de publicação de um dos seus livros, ou contra as famílias que o convidavam, furtando-lhes objetos preciosos.

- Quanto ao resto, o ambiente era favorável: há mais vício na alta sociedade do que em Pigalle ou em Montparnasse. Monsieur Anouilh pode falar: é o seu direito. Mas fala por despeito.

Quando o editor Gallimard publicou, há alguns anos atrás, as obras completas de Genet, compreendendo seis volumes, pediu um prefácio a Jean-Paul Sartre. O filósofo existencialista entuasiasmou-se e escreveu seiscentas páginas datilografadas. O católico François Mauriac qualificou-os de “autores escatológicos”. Um Ministro do Interior quis mandar retirar a edição do mercado, mas não chegou a fazê-lo.

- Sempre tive paciência com a Polícia. Nós nos entendemos: nada se parece mais com um criminoso do que um policia. Somos irmãos: em nossas veias corre a mesma sede de sangue e de violência. Nunca me diverti tanto como uma vez em Nice, no Comissariado onde me detinham. Dormia comigo um polícia, belo, forte e confiante. Furtei-lhe cem francos, durante a noite. Na manhã seguinte, o rapaz procurava o dinheiro por toda parte, nos lugares mais estranhos. Você já viu a cara de um roubado? Cara de roubado dá a impressão de que ele está com cólicas. Fingindo ignorância, eu dizia ao rapaz: vai lá no fundo e te alivia, acho que estás doente. Essa reflexão me salvou de mim mesmo e fiquei com o dinheiro.
Quantos anos Genet terá vivido do roubo? Com a cabeça nua oculta na gola da gabardine, ele olhava de novo para a praça da Bastilha. Um rapaz jogava tac-tac no café e a campainha da máquina soava a cada momento.

- Não sou um revoltado contra a sociedade, mas estou odiando esse rapaz com essa máquina. Adotei o crime aos 22 anos, por indolência. Eu acabara de sair de um orfanato, onde me educaram. Quando digo educaram, falo sério. Ensinaram-me o latim, o grego, a filosofia e a pederastia. Continuo fiel a todas essas matérias, mas o roubo foi idéia minha, uma facilidade excitante. Estávamos em 1932 e tive de fugir para a Espanha, onde continuei roubando. Vivi, nas ruas de Barcelona, Madri, Cádiz e Gilbratar, os mais belos momentos da minha vida. Nessa época, a Espanha estava coberta de vermes: os seus mendigos. Eles andavam de povoado em povoado, na Andaluzia porque tinha sol, na Catalunha porque era rica e em Madri por causa do vício. Tornei-me, pois, um percevejo consciente. Às vezes, dormíamos seis numa cama só. Porque o criminoso profissional não dorme ao relento; sempre encontra um canto onde se aninhar.

PARA ELE O BRASIL ERA UMA ILHA D’ALÉM MAR E D’ALÉM SOL

Da Espanha, Genet voltou à França, com os republicanos derrotados por Franco, sendo internado por poucos dias num campo de concentração próximo de Bayonne.

- A polícia francesa retirou-me do campo para trancafiar-me na cadeia, eu tinha condenação de dois anos. Antes de chegar a Paris, consegui escapar de meus guardas e corri a Europa, na direção de Praga. Então, o aparelho militar alemão começou a funcionar e, com ele, a espionagem. Na companhia de um amigo espanhol, chamado Saliciano, furtei os segredos militares de um coronel iuguslavo sediado em Praga. Mas a quem vender tais segredos? À Alemanha? À Itália? Acabamos jogando fora os papéis. Saliciano me dizia que, se insistíssemos na espionagem, correríamos o risco de escapar à abjeção em que vivíamos. A espionagem é um processo do qual os Estados sentem tanta vergonha que procuram enobrecê-lo para justificá-lo. Dessa nobreza, fui beneficiado.

Voltando mais uma vez à França, nas vésperas da guerra, Genet encontrou o país mobilizado:

- Tratatava-se de vestir uma farda e de ir dormir dentro da linha Maginot, que os alemães souberam contornar: em seis meses de guerra, não demos nenhum tiro. Desmobilizado por Petain, caí na prisão imediatamente. Foi quando escrevi “Lê Journal d’Um Voleur” (Diário de um ladrão). A prisão obrigou-me a debruçar-me sobre o papel em branco. Só os que não vivem podem escrever. A idéia de uma obra literária me faria dar de ombros. Eu preferia viver. Mas, durante a ocupação, as prisões eram horrorosas. Não havia, sequer, a possibilidade de contato humano. Na solidão de minha cela, o mundo era uma torrente, um rio de forças unidas que me conduziam ao mar da morte. Tentando viver, comecei revivendo meus dias gloriosos de libertinagem. Era uma forma de dar voz ao que emudecera. Veja: naqueles dias, eu pensava muito no Brasil, sonhava com o Brasil, e, na minha idéia, o Brasil era uma ilha d’além mar e d’além sol, onde os homens, atléticos, de fisionomias gastas, acocoravam-se em torno de fogueiras, para descascar, em serpentinas, laranjas enormes, como os antigos imperadores romanos nas gravuras.

Tentando explicar Jean Genet, o filósofo Jean-Paul Sartre escreveu: “A Poesia de Genet não é arte literária, é um meio de salvação. Na maioria das vezes, seus poemas se reduzem a uma palavra e não destinam ao público: é uma maneira de viver. Magnificando a abjeção para poder suportá-la, Genet endereça seus poemas a uma ausência divina. Saberá, ao menos, que é poeta? Não sabe. Mas reconhece que se defende da morte. Criança abandonada, foge à sua maldição original e busca seu próprio ser.” Eu preferiria Apolinaire:

“O vicio em tudo isso
não passa de ilusão
que somente enganar
às almas vulgares.”


Justino Martins para a Revista Manchete numero 360, de 14/03/1959.

sexta-feira, 6 de abril de 2007

Edgar Allan Poe, biografia e textos

Edgar Allan Poe nasceu no nº 33 da rua Hollis, em Boston, Massachussetts, a 19 de janeiro de 1809, filho de pobres atores, David e Isabel (nascida Arnold) Poe. Seus pais achavam-se então cumprindo um contrato num teatro de Boston, e as representações de ambos, juntamente com sua permanência em vários lugares, durante sua carreira errante, podem ser acompanhadas plenamente pelos programas de teatro da época.

LINHAGEM PATERNA

O pai do poeta era um tal David, de Baltimore, Maryland, que havia abandonado o estudo de Direito, naquela cidade, para seguir a carreira teatral contra o desejo da familia.Os Poe haviam se estabelecido na América, duas ou três gerações antes do nascimento de Edgar. Traça-se distintamente sua linha ascendente até Dring, da paróquia de Kildallen, do Condado de Cavan, na Irlanda e daí até a paroquia de Fenwick, em Ayrshire, na Escócia. Portanto, derivavam eles dum tronco escoto-irlandês, sendo duvidoso que haja traços de celtas.Os primeiros Poes vieram para a América por volta de 1739. Os imediatos anepassados paernos do poeta desembarcaram em Neswcastle, Delaware, em 1748, ou pocuo mais mais cedo. Eram eles John Poe e sua mulher, Joana McBride Poe, que foram estabelecer-se na Pensilvânia oriental. Este casal teve dez filhos, entre eles David, que foi o avô do poeta. David Poe casou-se com Isabel Cairnes, também de ascendência escoto-irlandesa, e viveram em Lancaster, Pensilvânia, donde tempo antes de rebentar a Revolução Americana, se removeram para Baltimore, Maryland.David Poe e sua mulher, Isabel Cairnes Poe, tomaram partido patriótico da Revolução. David mostrou-se ativo em expulsar de Baltimore os partidários do Rei e foi nomeado “Deputado Quartel-Mestre Assistente”, o que significava ser ele agente de aprovisionamento militares para o Exército Revolucionário.Diz-se que ele prestou considerável auxilio a Lafayette, durante as campanhas da Virginia e do Sul, e por essa patriótica atividade recebeu o título de “General” honorário.Sua mulher, Isabel, tomou parte ativa na confecção de roupas para o Exército Continental. David e Isabel tiveram sete filhos.

David, o mais velho, veio a ser o pai do poeta. Duas irmãs de David, Elisa Poe (depois Sr. Henry Herring) e Mary Poe (mais tarde Sr. William Clemm) entram na história da vida do poeta, a última especialmente, por ter se tornado sua sogra, além de ser sua tia. Com ela viveu de 1835 a 1849.O jovem David Poe estava destinado ao estudo do Direito, mas como já mencionamos, deixou a cidade natal para seguir a carreira de teatro. Sua estréia profissional realizou-se em Charleston, S.C., em dezembro de 1803. Uma notícia local, descreve David Poe como sendo extremamente tímido, ao passo que:“ .....Sua voz parece clara, melodiosa e variável; qual possa ser seu compasso, só se revela quando ele representa libertado de sua timidez. Sua dicção parece ser bem distinta e articulada; e seu rosto e sua pessoa dizem muito a seu favor. Seu tamanho é daquele porte bem adequado à ação geral, se seu talento se adaptasse ao sôco e ao coturno....”É este talvez, o único testemunho direto existente do aspecto físico do pai do poeta. Não se conhecem retratos dele. Suas qualidades histriônicas eram, quando muito, limitadas. Continuou a representar papéis menores em várias cidades do Sul e em janeiro de 1806, casou-se com Isabel Arnold Hopkins, jovem viúva sem filhos, também atriz, cujo marido morrera havia poucos meses. Isabel Arnold Poe veio a ser a mãe de Edgar Allan Poe.

LINHAGEM MATERNA

A jovem viúva com quem David Poe se casou em 1806, nascera na Inglaterra na primavera de 1787. Era filha de Henry Arnold e de Isabel Arnold (nascida Smith), ambos atores no Teatro Real de Covent Garden, em Londres. Henry Arnold morreu, ao que parece, em 1793. Sua viúva continou a prover o sustento próprio e da filha, representando e cantando e em 1796, trazendo consigo sua jovem filha, veio para a América, desembarcando em Boston. A sra. Arnold continuou sua carreira profissional na América, a principio com pouquíssimo êxito. Imediatamente antes ou logo depois de chegar aos Estados Unidos, casou-se pela segunda vez com um tal Charles Tubb, inglês de poucos dotes e pouco caráter.O casal continuou a representar, a cantar e a dançar em várias cidades, por toda a costa oriental e a jovem Srta. Arnold logo foi notada nos cartazes, aparecendo em papéis juvenis, como membro de várias companhias a que sua família pertencia.

O Sr. e Sra. Tubbs desapareceram de vista, aí por volta de 1798, mas a carreira de Isabel Arnold, mãe de Poe, pôde ser seguida cuidadosamente, pelos vários cartazes de anúncios e notícias nos jornais das diversas cidades em que representou, até sua morte em 1811. Foi durante suas viagens como atriz que se casou com C. D. Hopkins, também ator, em agosto de 1801. Não houve filhos dessa união. Hopkins morreu três anos depois, e em 1806, como foi dito antes, sua viúva casou-se com David Poe.O casal continuou a representar juntos, mas com muito pouco êxito. Nasceram-lhe três filhos: William Henry Leonard, nascido em Boston em 1807; Edgar, nascido em Boston em 1809; e Rosalia, em Norfolk, V.A., provavelmente em dezembro de 1810.

Em razão de sua situação sempre de extrema pobreza, o primeiro filho Henry fora deixado aos cuidados de seus avós, em Baltimore, logo após seu nascimento.Edgar nascera quando seus pais cumpriam um contrato no Teatro de Boston. No verão de 1809, os Poe foram para Nova York, onde David Poe ou morreu, ou abandonou sua mulher, provavelmente esta última opção. A Sra. Poe foi abandonada com o menino Edgar e, algum tempo depois, deu à luz uma filha. Lançou-se suspeita, mais tarde, a respeito da paternidade dessa última criança e sobre a reputação da Sra. Poe, suspeita essa que desempenhou desgraçado papel nas vidas de seus filhos. Não é preciso dizer que tal suspeita era injusta.De 1810 em diante, a Sra. Poe continuou com precária saúde, a aparecer em vários papéis, em Norfolk , Va., em Charleston, Sc., e em Richmond. No inverno de 1811 foi prostrada por uma doença fatal, vindo a falecer a 8 de dezembro em situação de grande miséria e pobreza, na casa de uma modista de chapéus escocesa, emRichmond. Foi sepultada no cemitério da Igreja Episcopal de St. John, daquela cidade, dois dias mais tarde, mas não sem pia oposição. Sobreviviam à Sra. Poe três crianças órfãs. Duas delas, Edgar e Rosália, achavam-se com ela ao tempo de sua morte e foram tratadas por pessoas caridosas. Edgar, então com cêrca de dois anos de idade foi levado para a casa de John Allan, negociante escocês, em situação francamente próspera, ao passo que a pequena Rosália recebera abrigo em casa do casal William Mackenzie.

Os Allan e os Mackenzie eram amigos íntimos e vizinhos. As crianças ficaram naquelas casas e o fato de sua criação tornou-se, com o correr do tempo, equivalente a uma adoção..continuará.

CONTOS E POEMAS DE EDGAR ALLAN POE

O CORVO

Foi uma vez: eu refletia, à meia-noite êrma e sombria
a ler doutrinas de outro tempo em curiosíssimos manuais,
e, exausto, quase adormecido, ouvi de súbito um ruído
tal qual se houvesse alguém batido à minha porta, devagar.
"É alguém" - fiquei a murmurar - "que bate à porta, devagar;
sim, é só isso e nada mais".

Ah! Claramente eu o relembro! Era no gélido dezembro
e o fogo, agônico, animava o chão de sombras fantasmais.
Ansiando ver a noite finda, em vão, a ler, buscava ainda
algum remédio à amarga, infinda, atroz saudade de Lenora
- essa, mais bela do que a aurora, a quem nos céus chamam Lenora
e nome aqui já tem mais.

A sêda rubra da cortina arfava em lúgubre surdina,
arrepiando-me e evocando ignotos mêdos sepulcrais.
De susto, em pávida arritmia, o coração veloz batia
e a sossegá-lo eu repetia: "É um visitante e pede abrigo.
Chegando tarde, algum amigo está a bater e pede abrigo.
É apenas isso e nada mais.

"Ergui-me após e, calmo enfim, sem hesitar, falei assim:
"Perdoai, senhora, ou meu senhor, se há muito aí fora me esperais;
mas é que estava dormecido e foi tão débil o batido,
que eu mal podia ter ouvido alguém chamar à minha porta,
assim de leve, em hora morta.
" Escancarei então a porta:- escuridão, e nada mais.


Sondei a noite êrma e tranquila, olhei-a fundo, a perquiri-la,
sonhando sonhos que ninguém, ninguém ousou sonhar iguais.
Estarrecido de ânsia e mêdo, ante o negror imoto e quêdo,
só um nome ouvi (quase em segredo eu o dizia) e foi:
"Lenora!"E o eco, em voz evocadora, o repetiu também: "Lenora!"
Depois, silêncio e nada mais.

Com a alma em febre, eu novamente entrei no quarto e, de repente,
mais forte, o ruído recomeça e repercute nos vitrais.
"É na janela" - penso então. " - Por que agitar-me de aflição?
Conserva a calma, coração! É na janela, onde, agourento,
o vento sopra. É só do vento esse rumor surdo e agourento.
É o vento só e nada mais.

"Abro a janela e eis que, em tumulto, a esvoaçar, penetra um vulto:
- é um Corvo hierático e soberbo, egresso de eras ancestrais.
Como um fidalgo passa, augusto e, sem notar sequer meu susto,
adeja e pousa sobre o busto - uma escultura de Minerva,
bem sobre a porta; e se conserva ali, no busto de Minerva,
empoleirado e nada mais.

Ao ver da ave austera e escura a soleníssima figura,
desperta em mim um leve riso, a distrair-me de meus ais.
“Sem crista embora, ó Corvo antigo e singular” – então lhe digo –
“não tens pavor. Fala comigo, alma da noite, espectro tôrvo,
qual é teu nome, ó nobre Corvo, o nome teu no inferno tôrvo!
”E o Corvo disse: “Nunca mais”.

Maravilhou-me que falasse uma ave rude dessa classe,
Misteriosa esfinge negra, a retorquir-me em têrmos tais;
pois nunca soube de vivente algum, outrora ou no presente
que igual surpresa experimente: a de encontrar, em sua porta,
uma ave (ou fera, pouco importa), empoleirada em sua porta
e que se chama: “Nunca mais”.

Diversa coisa não dizia, ali pousada, a ave sombria,
Com a alma inteira a se espelhar naquelas sílabas fatais.
Murmuro, então, vendo-a serena e sem mover uma só pena,
enquanto a mágoa me envenena: “Amigos ... sempre vão-se embora.
Como a esperança, ao vir a aurora, ELE também há de ir-se embora.”
E disse o Corvo: “Nunca mais”.

Vara o silêncio, com tal nexo, essa resposta que, perplexo,
Julgo: “É isso o que ele diz; duas palavras sempre iguais.
Soube-as de um dono a quem tortura uma implacável desventura
E a quem, repleto de amargura, apenas resta um ritornelo
De seu cantar; do morto anelo, um epitáfio: - o ritornelo
de “Nunca, nunca, nunca mais”.

Como ainda o Corvo me mudasse em um sorriso a triste face,
girei então numa poltrona, em frente ao busto, à ave, aos umbraise, mergulhando no coxim,
pus-me a inquirir (pois, para mim,visava a algum secreto fim)
que pretendia o antigo Corvo,com que intenções, horrendo, tôrvo,
esse ominoso e antigo Corvo
grasnava sempre: “Nunca mais”.

Sentindo da ave, incandescente, o olhar queimar-me fixamente,
eu me abismava, absorto e mudo, em deduções conjeturais.
Cismara, a fronte reclinada, a descansar, sobre a almofada
dessa poltrona aveludada em que a luz cai suavemente,
dessa poltrona em que ELA, ausente, à luz que cai suavemente,
já não repousa, ah! nunca mais ....

O ar pareceu-me então mais denso e perfumado, qual se incenso
ali descessem a esparzir turibulários celestiais.
“Mísero!” – exclamo “ – Enfim teu Deus te dá mandando os anjos, seus
esquecimento, lá dos céus, para as saudades de Lenora.
Sorve o nepentes. Sorve-o, agora! Esquece, olvida essa Lenora!
”E o Corvo disse: “Nunca mais”.

“Profeta!” – brado. “ – Ó ser do mal! Profeta sempre, ave infernal
que o Tentador lançou do abismo, ou que arrojaram temporais,
de algum naufrágio, a esta maldita e estéril terra, a esta precita
mansão de horror, que o horror habita,
- imploro, dize-mo, em verdade:EXISTE um bálsamo em Gallad?
Imploro! Dize-mo, em verdade!”
E o Corvo disse: “Nunca mais”.

“Profeta!” – exclamo. “ – Ó ser do mal! Profeta sempre, ave infernal!
Pelo alto céu, por esse Deus que adoram todos os mortais,
fala se esta alma sob o guante atroz da dor, no Éden distante,
verá a deusa fulgurante a quem nos céus chamam Lenora,
- essa, mais bela do que a aurora, a quem nos céus chamam Lenora!”
E o Corvo disse: “Nunca mais!”

“Seja isso a nossa despedida!” – ergo-me e grito, alma incendiada.
–“Volta de novo à tempestade, aos negros antros infernais!
Nem leve pluma de ti reste aqui, que tal mentira ateste!
Deixa-me só neste ermo agreste! Alça teu vôo dessa porta!
Retira a garra que me corta o peito e vai-te dessa porta!”
E o Corvo disse: “Nunca mais!”

E lá ficou! Hirto, sombrio, ainda hoje o vejo, horas a fio,
sobre o alvo busto de Minerva, inerte, sempre em meus umbrais.
No seu olhar medonho e enorme o anjo do mal, em sonhos, dorme,
e a luz da lâmpada, disforme, atira ao chão a sua sombra.
Nela, que ondula sobre a alfombra, está minha alma; e, presa à sombra,
Não há de erguer-se, ai! nunca mais!

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O BARRIL DE AMONTILLADO

Suportara eu, enquanto possível, as mil ofensas de Fortunato, mas quando se aventurou ele a insultar-me, jurei me vingar. Vós que tão bem conheceis a natureza de minha alma, não havereis de supor, porém, que proferi alguma ameaça. Afinal, deveria vingar-me. Isto era um ponto definitivamente assentado, mas essa resolução definitiva excluía a idéia de risco. Eu devia não só punir, mas punir com impunidade. Não se desagrava uma injúria, quando o castigo recai sobre o desagravante. O mesmo acontece quando o vingador deixa de fazer sentir sua qualidade de vingador a quem o injuriou.Fica logo entendido que nem por palavras, nem por fatos, dera eu causa a Fortunato, de duvidar de minha boa vontade.

Continuei, como de costume a fazer-lhe cara alegre, e ele não percebia que meu sorriso agora se originara da idéia de sua imolação.O Fortunato tinha o seu lado fraco, embora, a outros respeitos, fosse um homem acatado e até temido. Orgulhava-se de ser conhecedor de vinhos. Poucos italianos tem o verdadeiro espírito do “conhecedor”. Na maior parte, seu entusiasmo adapta-se às circunstâncias do momento e da oportunidade, para ludibriar milionários ingleses e austríacos. Em matéria de pintura e ourivesaria era Fortunato semelhante a seus patrícios, um impostor, mas em assunto de vinhos velhos era sincero. A este respeito, éramos da mesma força. Considerava-me muito entendido em vinhos italianos, e, sempre que podia, comprava-os em larga escala.

Foi ao escurecer duma tarde, durante o supremo delírio carnavalesco, que encontrei meu amigo. Abordou-me com excessivo ardor, pois já estava bastante bêbado. Estava fantasiado com um traje apertado e listado, trazendo na cabeça uma carapuça cônica, cheia de guizos. Tão contente fiquei ao vê-lo, que não cessava de apertar-lhe a mão. E disse-lhe:
- Meu caro Fortunato, foi uma felicidade encontrá-lo. Como está você bem disposto hoje! Mas recebi uma pipa dum vinho, dado como Amontillado e tenho minhas dúvidas.
- Como? – disse ele. – Amontillado? Uma pipa? Impossível. E no meio do carnaval!
- Tenho minhas dúvidas – repliquei, - mas fui bastante tolo em pagar o preço total do amontillado, sem antes consultar você. Não consegui encontrá-lo e tinha receio de perder uma pechincha.
- Amontillado!
-Tenho minhas dúvidas.
- Amontillado!
- E preciso desfazê-las.
- Amontillado!
- Se você não estivesse ocupado ...Estou indo à casa de Luchesi. Se há alguém que entenda disso, é ele. Terá de dizer-me ...
- Luchesi não sabe diferenciar um Amontillado dum Xerez.
- No entanto, há uns bobos que dizem por aí, em matéria de vinhos, vocês se equiparam.
- Pois então vamos.
- Para onde?
- Para sua adega.
- Não, meu amigo. Não quero abusar de sua boa vontade. Vejo que você está ocupado. Luchesi ...
- Não estou ocupado coisa nenhuma ... Vamos.
- Não, meu amigo. Não é por isso, mas é que vejo que você está fortemente resfriado. A adega está duma umidade intolerável. Suas paredes estão incrustadas de salitre.
- Não tem importância, vamos. Um resfriado à-toa. Amontillado! Acho q ue você foi enganado. Quanto a Luchesi, é incapaz de distinguir um Xerez dum Amontillado.

Assim falando, Fortunato agarrou-me o braço. Pondo no rosto uma máscara de seda e enrolando-me num rocló, deixei-me levar por ele, às pressas, na direção do meu palácio.Todos os meus criados haviam saído para se divertirem no carnaval. Dissera-lhes que só voltaria de madrugada e dera-lhes explícitas ordens para não se afastarem de casa. Foi, porém, o bastante, bem o sabia, para que sumissem, logo que virei as costas.

Peguei dois archotes, um dos quais entreguei a Fortunato, e conduzi-o através de várias salas até a passagem abobadada, que levava à adega. Desci à frente dele uma longa e tortuosa escada, aconselhando-o a ter cuidado. Chegamos por fim ao sopé e ficamos juntos, no chão úmido das catacumbas dos Montresors.Meu amigo cambaleava e os guizos de sua carapuça tilintavam, a cada passo que dava.
- Onde está a pipa? – perguntou ele.
- Mais para o fundo – respondi, - mas repare nas teias cristalinas que brilham nas paredes desta caverna.- Ele voltou-se para mim e fitou-me bem nos olhos, com aqueles seus dois glóbulos vítreos que destilavam a reuma da bebedeira.
- Salitre? – perguntou rele, por fim.
- É, sim – respondei – Há quanto tempo está você com esta tosse?
- Eh! Eh! Eh! Eh! Eh! Eh! – pôs-se ele a tossir e durante muitos minutos não conseguiu meu pobre amigo dizer uma palavra.
- Não é nada – disse ele, afinal.
- Venha – disse eu, decidido. – Vamos voltar. Sua saúde é preciosa. Você é rico, respeitado, admirado, amado. Você é feliz, como eu era outrora. Você é um homem que faz falta. Quanto a mim, não. Voltemos. Você pode piorar e não quero ser responsável por isso. Além do que, posso recorrer a Luchesi ...
- Basta! – disse ele. – Esta tosse não vale nada.Não me há de matar. Não é de tosse que hei de morrer.
- Isto é verdade ... isto é verdade – respondi – e, de fato, não era minha intenção alarmá-lo sem motivo. Mas acho que você deveria tomar toda a precaução. Um gole de Médoc nos defenderá de umidade.
Então fiz saltar o gargalo duma garrafa, que retirei duma longa fileira empilhada no chão.
- Beba – disse eu, apresentando-lhe o vinho.Levou a garrafa aos lábios com um olhar malicioso. Calou-se um instante e me cumprimentou com familiaridade, fazendo tilintarem os guizos.
- Bebo pelos defuntos que repousam em torno de nós – disse ele.
- E eu para que você viva muito.
Pegou-me de novo pelo braço e prosseguimos.
- Estas adegas são enormes – disse ele.
- Os Montresors eram uma família rica e numerosa – respondi.- Não me lembro quais são suas armas.
- Um enorme pé humano dourado, em campo blau; o pé esmaga uma serpente rastejante, cujos colmilhos se lhe cravam no calcanhar.
- E qual é a divisa?
- Nemo me impune iacessit
- Bonito! – disse ele.O vinho faiscava-lhe nos olhos e os guizos tilintavam. Minha própria imaginação se aquecia com o Médoc. Havíamos passado diante de paredes de ossos empilhados, entre barris e pipotes, até os recessos extremos das catacumbas. Parei de novo e desta vez atrevi-me a pegar Fortunato por um braço, acima do cotovelo.
- O salitre! Veja, está aumentando. Parece musgo agarrado às paredes. Estamos em baixo do leito do rio. As gotas de umidade filtram-se entre os ossos. Venha, vamos antes que seja demasiado tarde. Sua tosse ...
- Não é nada - disse ele. – Continuemos. Mas antes dê-me outro gole de Médoc.Quebrei o gargalo de uma garrafa de De Grave e entreguei-lha. Esvaziou-a dum trago. Seus olhos cintilavam, ardentes. Riu-se e jogou a garrafa para cima, com um gesto que eu não compreendi.Olhei surpreso para ele. Repetiu o grotesco movimento.
- Não compreende? – perguntou.
- Não.- Então não pertence à irmandade?
- Que irmandade?
- Você não é maçom?
- Sim, sim, sim, sim – respondi.
- Você? Maçom? Não é possível.
- Sou maçom, sim.- Mostre o sinal – disse ele.
- É este – respondi, retirando de sob as dobras de meu rocló uma colher de pedreiro.
- Você está brincando – exclamou ele, dando uns passos para trás – Mas vamos ver o Amontillado.
- Pois vamos – disse-lhe eu, recolocando a colher debaixo do capote e oferecendo-lhe, de novo, meu braço, sobre o qual se apoiou ele pesadamente. Continuamos o caminho em busca do Amontillado. Passamos por uma série de baixas arcadas, demos voltas, seguimos para a frente, descemos de novo e chegamos a uma profunda cripta, onde a impureza do ar reduzia a chama de nossos archotes a brasas avermelhadas.No recanto mais remoto da cripta, outra se descobria menos espaçosa. Nas suas paredes alinhavam-se restos humanos, empilhados até o alto da abóbada, à maneira das grandes catacumbas de Paris. Três lados dessa cripta interior estavam assim ornamentados. Do quarto haviam sido afastados os ossos, que jaziam misturados no chão, formando em certo ponto um montículo de avultado tamanho. Na parede assim desguarnecida dos ossos, percebemos um outro nicho, com cêrca de quatro pés de profundidade, três de largura e seis ou sete de altura. Não parecia ter sido escavado para um uso especial, mas formado simplesmente pelo intervalo entre dois dos colossais pilares de teto das catacumbas e tinha como fundo uma das paredes de sólido granito, que os circunscreviam.
Foi em vão que Fortunato, erguendo a tocha mortiça, tentou espreitar a profundeza do recesso. A fraca luz não nos permitia ver-lhe o fim.
- Vamos - disse, - aqui está o Amontillado. Quanto a Luchesi ...- É um ignorantaço! - interrompeu meu amigo, enquanto caminhava, vacilante, para diante e eu o acompanhava rentee aos seus calcanhares. Sem demora alcançou ele a extremidade do nicho e, não podendo mais prosseguir, por causa da rocha, ficou estupidamente apatetado. Um momento mais e ei-lo acorrentado por mim ao granito. Na sua superfície havia dois anéis de ferro, distando um do outro cêrca de dois pés, horizontalmente. De um deles pendia curta cadeia e do outro um cadeado. Passar-lhe a corrente em tôrno da cintura e prendê-lo, bem seguro, foi obra de minutos. Estava por demais atônito para resistir. Tirando a chave, saí do nicho.
- Passe sua mão - disse eu - por sobre a parede; não poderá deixar de sentir o salitre. É de fato bastante úmido. Mais uma vez permita-me implorar-lhe que volte. Não? Então devo positivamente deixá-lo. Mas é preciso primeiro prestar-lhe todas as pequeninas atenções que puder.
- O Amontillado! - vociferou meu amigo, ainda não recobrado do espanto.
- É verdade - repliquei, - o Amontillado.
Ao dizer estas palavras pus-me a procurar as pilhas de ossos, a que me referi antes. Jogando-os para um lado, logo descobri grande quantidade de tijolos e argamassa. Com estes materiais e com o auxilio de minha colher de pedreiro, comecei com vigor a emparedar a entrada do nicho.Mal havia eu começado a acamar a primeira fila de tijolos, descobri que a embriaguez de Fortunato se tinha dissipado em grande parte. O primeiro indício disto que tive foi um surdo lamento, lá do fundo do nicho. Não era o choro de um homem embriagado. Seguiu-se então um longo e obstinado silêncio. Deitei a segunda camada, a terceira e a quarta e depois ouvi as furiosas vibrações da corrente. O barulho durou vários minutos, durante os quais, para gozá-lo com maior satisfação, interrompi meu trabalho e me sentei em cima dos ossos.
Quando afinal o tilintar cessou, tornei a pegar na colher e acabei sem interrupção a quinta, a sexta e a sétima camadas. A parede estava agora quase ao nível de meu peito. Parei de novo e, levantando o archote por cima dela, lancei uns poucos e fracos raios sobre o rosto dentro do nicho. Uma explosão de berros fortes e agudos, provindos da garganta do vulto acorrentado, me fez recuar com violência. Durante um breve momento hesitei. Tremia. Desembainhando minha espada, comecei a apalpar com ela em torno do nicho, mas uns instantes de reflexão me tranquilizaram.
Coloquei a mão sobre a alvenaria sólida das catacumbas e senti-me satisfeito. Reaproximei-me da parede. Respondi aos urros do homem. Servi-lhe de eco ... ajudei-o a gritar ... ultrapassei-o em volume e em força. Fui fazendo assim e por fim cessou o clamor.Era agora meia-noite e meu serviço chegara ao têrmo. Completara a oitava, a nona e a décima camadas. Tinha acabado uma porção dessa última e a décima primeira. Faltava apenas uma pedra a ser colocada e argamassa. Carreguei-a com dificuldade por causa do pêso. Coloquei-a, em parte, na posição devida. Mas então irrompeu de dentro do nicho uma enorme gargalhada, que me fez eriçar os cabelos. Seguiu-lhe uma voz lamentosa , que tive dificuldade em reconhecer como a do nobre Fortunato. A voz dizia:
- Ah! Ah! Ah! ... Eh! Eh! Eh! ... Uma troca bem boa de fato ... uma excelente pilhéria. Haveremos de rir a bandeiras despregadas lá no palácio ... Eh! Eh! Eh! ... a respeito desse vinho ...Eh! Eh! Eh!
- O Amontillado! - exclamei eu.- Eh! Eh! Eh! ... Eh! Eh! Eh! ... Sim, o Amontillado. Mas já não será tarde? Já não estarão esperando por nós, no palácio, minha mulher e os outros? Vamos embora.
- Sim - disse eu, - vamos embora.- Pelo amor de Deus, Montresor!
- Sim - disse eu, - pelo amor de Deus!Aguardei debalde uma resposta a essas palavras. Impacientei-me. Chamei de voz alta.
- Fortunato!Nenhuma resposta. Chamei de novo!- Fortunato!Nenhuma resposta ainda. Lancei uma tocha, através da abertura remanescente, e deixei-a cair lá de dentro. Como resposta ouvi apenas o tinir dos guizos. Senti um aperto no coração ... devido talvez à umidade das catacumbas. Apressei-me em terminar meu trabalho. Empurrei a última pedra em sua posição. Argamassei-a. Contra a nova parede, reergui a velha muralha de ossos. Já faz meio século que mortal algum os remexeu. In pace requiescat!